
COMPASSO #3
Um radar sobre o Brasil que cria e inova.
A REGRA DOS TRÊS LASTROS

imagem gerada com IA
Há uma sala discreta em Planaltina, no Distrito Federal, onde uma decisão tomada cinquenta anos atrás ainda trabalha.
Quando a Embrapa Cerrados foi criada, em 1975, o solo do Cerrado era considerado pobre, ácido e bom para nada. Hoje, o mesmo Cerrado responde por uma fatia decisiva da soja que o mundo come. Na safra 2024/25, o Brasil produziu 169,5 milhões de toneladas e ficou bem à frente dos Estados Unidos. Para a safra 2025/26, a projeção do USDA é de 180 milhões. O país concentra mais da metade das exportações globais do grão.
Um parêntese necessário. A expansão do agro brasileiro tem tensões ambientais reais, do desmatamento à monocultura. Esta edição não trata desse ângulo, que merece edição própria. Trata do método que a ciência agrícola brasileira construiu e da narrativa que ainda falta construir.
Esse resultado, hoje banal nos jornais, exigiu três coisas distintas. Capacidade científica para tropicalizar uma cultura que era de clima temperado. Sistema de medição para que o ganho fosse comprovado fora do país. E uma narrativa para que o Brasil entrasse na conversa global do agro com voz própria.
A primeira o Brasil construiu. A segunda também. A terceira segue terceirizada. A história do agronegócio brasileiro hoje é contada, em última instância, no USDA, no Chicago Board of Trade e em relatórios de consultorias globais. O Brasil produz, mede e exporta. Mas não conta. O preço da soja é cotado em centavos de dólar por bushel em Chicago, não em reais por tonelada em Sorriso.
Esta edição é sobre esse padrão. E sobre o que ele revela como método.
Duas edições atrás, o Compasso falou de lastro de quem faz e de lastro de quem mede. Na edição passada, falou de lastro de quem conta. Os três aparecem juntos sempre que um setor brasileiro vira referência global. Quando algum falta, o país produz a inovação e fica com a parte menor do valor que ela gera.
Vale formalizar.
Lastro de quem faz. Capacidade real, comprovada, escalável de produzir aquilo. Não é potencial. É produção corrente, hoje, com método replicável.
Lastro de quem mede. Dado, certificação, métrica auditável por terceiros. Permite que o mundo saiba o que está sendo feito sem precisar acreditar na palavra de quem faz.
Lastro de quem conta. Sistema próprio de narrativa, distribuição e captura de valor. Quem detém a história detém o lucro. Não é só comunicação. É canal, marca, IP, língua, mídia, política pública.
O Brasil costuma ter um. Frequentemente tem dois. Raramente tem os três. Quando tem, vira plataforma global que outros copiam.
Pegue o caso mais recente. Em novembro de 2020, o Banco Central brasileiro lançou o Pix. Cinco anos depois, o sistema responde por mais de 54% das transações financeiras do país no segundo semestre de 2025 e ultrapassou, pela primeira vez, 313 milhões de transferências em um único dia. Foi construído por um regulador público, com dados abertos, e o próprio BC contou a história. Levou o caso a fóruns internacionais como o Banco de Compensações Internacionais e o projeto Nexus, que conecta sistemas de pagamento instantâneo no mundo. O modelo já inspira diversos países. Faz, mede e conta. Os três lastros. Resultado: o padrão brasileiro virou referência exportável a ponto de o relatório anual do USTR sobre barreiras ao comércio exterior, em 2026, dedicar oito páginas ao Brasil e listar a participação obrigatória de instituições no Pix como barreira regulatória.
Pegue um caso intermediário. Anitta tem hoje cerca de 45 milhões de ouvintes mensais no Spotify, é a primeira brasileira a chegar a esse patamar e a artista nacional mais escutada fora do Brasil em 2025. Faz e mede. Falta o terceiro. A carreira global dela passou onze anos por uma gravadora americana e migrou recentemente para outra, também americana, dentro do mesmo grupo global. O catálogo, os contratos, o pedaço do valor que mais aparece em conta corrente seguem definidos lá fora. O Brasil exporta o talento, exporta o produto, exporta a referência. E importa de volta a história sobre o que aconteceu.
Para enxergar o que o terceiro lastro muda, vale comparar com Bad Bunny. Latino, escala global próxima. Em 2025, ele rodou uma residência de 31 shows em San Juan, batizada No Me Quiero Ir de Aquí. Vendeu cerca de 400 mil ingressos em horas e trouxe mais de 250 mil visitantes para Porto Rico, com efeito mensurável sobre artesãos, livreiros e músicos locais. É gravado pela Rimas Entertainment, gravadora independente porto-riquenha sediada em San Juan. Mesma escala de carreira, mesmo gênero de mercado. A diferença está no terceiro lastro: lá, o mundo vai até a ilha, e o catálogo, a marca e a história ficam em casa.
Pegue, agora, o caso do agro com que esta edição começou. A Embrapa fez, a Embrapa mede, o Brasil é o maior exportador mundial. Mas a história do agro brasileiro é narrada em Chicago, com unidade de medida americana e ciclos de notícia que rodam em torno do USDA. O dia em que o relatório sai movimenta o preço do grão plantado em Mato Grosso. Brasil é objeto de leitura, não autor da narrativa.
Há um padrão. O Brasil chega na fronteira do fazer e do medir com regularidade. Patina na fronteira do contar.
A boa notícia é que contar é a etapa mais barata das três. Não exige novo laboratório, nova safra, novo investimento de capital. Exige decisão. Escolha de canal, de língua, de tempo, de quem fala. Tem custo de coordenação, não de infraestrutura.
A primeira edição do Compasso falou do lastro de quem mede. A segunda, do lastro de quem conta. Esta formaliza os três. Quem mede chega antes. Quem só promete chega cansado. E quem faz e mede, mas não conta, chega no destino sem o nome no troféu.
O Path existe para essa terceira fronteira. Para que parte do Brasil que cria deixe de pedir tradução ao mundo e passe a publicar a sua própria.
ONDE A COISA ACONTECE
Uma sexta-feira de manhã, em um data center neutro na zona sul de São Paulo. Num painel discreto, números variam em tempo real. Pico do dia, na última medição, mais de 30 terabits por segundo só no IXP de São Paulo, com agregado nacional acima de 50 Tbit/s. Mais que o tráfego de internet inteiro de muitos países europeus em horário de pico.
É o IX.br de São Paulo, o maior ponto de troca de tráfego de internet do mundo, por volume e por número de participantes. Mais de 2.400 redes diferentes conectadas, trocando dados diretamente entre si: bancos, streamings, buscadores, e-commerces, redes sociais, provedores regionais, universidades, sistemas de governo. O conjunto IX.br tem 36 pontos em todas as cinco regiões do país. É conduzido pelo NIC.br, sob governança multissetorial do CGI.br, em arquitetura aberta.
Quase ninguém vê esse lugar. Mas é por essa engenharia silenciosa, na cabeça do ranking global há anos, que a internet brasileira é mais barata, mais redundante e sob lei brasileira. Quando a tela do banco abre rápido em Manaus, é provável que tenha passado por aqui.

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ESCUTA FINA
Celso Furtado, economista, em síntese da tese central de Desenvolvimento e Subdesenvolvimento (Fundo de Cultura, 1961):
“Subdesenvolvimento é uma situação histórica própria, e não apenas uma etapa transitória rumo ao desenvolvimento.”
Sessenta e cinco anos depois, a tese ainda descreve uma decisão de método.
BONS DESVIOS
Duas leituras brasileiras que conversam com o tema desta edição. Cada uma sobre o Brasil construindo um sistema próprio para se entender.

Lilia M. Schwarcz e
Heloisa M. Starling
Brasil: uma biografia, 2015, Companhia das Letras. Setecentas páginas que contam a história do Brasil em narrativa única, sem terceirizar a interpretação a especialistas estrangeiros. Lastro de quem conta, em formato de livro.

Eduardo Viveiros de Castro
A Inconstância da Alma Selvagem, 2002, Cosac Naify. Antropologia indígena brasileira que virou referência mundial. Viveiros é hoje um dos pensadores brasileiros mais citados fora do país. Caso raro em que o Brasil exporta teoria, não só matéria-prima.
QUEM MOVE
DANIELA ARBEX, A REPÓRTER QUE FICOU EM MINAS E LEVOU BARBACENA PARA O MUNDO

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Ela escolheu não sair.
Jornalista, formada em Juiz de Fora, repórter especial da Tribuna de Minas desde 1995. Daniela Arbex tem três Prêmios Esso de Jornalismo, duas menções honrosas no Vladimir Herzog e o Knight International Journalism Award, entregue nos Estados Unidos em 2010. Currículo de Globo, feito em jornal regional.
A série de sete reportagens que a tornou referência saiu na Tribuna de Minas e contou a rotina do Hospital Colônia, em Barbacena, onde mais de sessenta mil pessoas morreram em décadas de internação compulsória. Rendeu o Esso de 2012. Virou livro, Holocausto Brasileiro, em 2013, pela Geração Editorial, e bestseller. Eleito reportagem-livro do ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte.
Arbex prova, edição por edição, que o lastro de quem conta não exige sair de onde se está. Exige método, tempo de apuração e coragem para fazer pergunta inconveniente em casa.
POR ONDE ANDAR
Web Summit Rio: De 8 a 11 de junho de 2026, no Riocentro, Rio de Janeiro. Uma das maiores conferências de tecnologia do mundo, com foco em IA, fintech, startups e produto. Bom termômetro de quem está construindo o que no ecossistema brasileiro.
Minas Summit: Em 17 e 18 de junho de 2026, em Belo Horizonte. Encontro do ecossistema mineiro de inovação. Recorte regional vale a pena: o Estado é um dos polos mais sólidos do país em tecnologia, software e energia.
Festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio, em Barbalha: De 30 de maio a 13 de junho de 2026, no Cariri cearense. A festa principal, com o cortejo do tronco erguido nos ombros de dezenas de homens até a frente da Igreja Matriz, acontece neste domingo, 31 de maio. Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo IPHAN desde 2015. Sistema cultural inteiro construído fora do eixo, com linguagem, escala e identidade próprias. Lembra que o calendário criativo brasileiro tem muito mais do que aparece nas pautas das capitais.
UM TROÇO IMPORTANTE
Uma sala de votação no interior do Maranhão. Uma urna eletrônica brasileira sobre a mesa.
A primeira urna eletrônica brasileira entrou em operação em 3 de outubro de 1996, nas eleições municipais, em 57 cidades, incluindo as 26 capitais. Trinta anos depois, o Brasil continua sendo um dos pouquíssimos países do mundo a votar inteiramente em formato digital. O resultado da eleição sai em horas. Sem cédula impressa em massa, sem rolar três dias para apurar, sem disputa de cédula como no caso americano da Flórida em 2000.

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Cada urna tem código auditável, cadeia de custódia documentada, e o sistema é construído e mantido pelo Tribunal Superior Eleitoral, com auditoria e fiscalização por partidos e outras entidades habilitadas.
Não é tecnologia de ponta no sentido publicitário. É infraestrutura institucional brasileira de processamento de voto. Funciona. E vale lembrar que funciona, porque é um sistema que faz, mede e, por décadas, contou a história com método.
JÁ TÁ ROLANDO
Toda semana, uma tendência real que já começou a se mexer. Garimpada nos sinais, lida com olhar brasileiro do Path.
O MODELO DE IA QUE FALA PORTUGUÊS

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Em março de 2024, uma startup brasileira de Campinas publicou um modelo de linguagem que faz uma coisa específica: pensar em português. O nome dela é Maritaca AI, fundada por pesquisadores da Unicamp. O modelo se chama Sabiá. Em 23 dos 64 exames brasileiros usados para avaliar IA, o Sabiá-2 médio bateu ou empatou com o GPT-4 turbo. Em 58, bateu o GPT-3.5.
Isso parece um detalhe técnico, mas é o começo de algo maior. A camada hoje dominante de IA, com modelos treinados em corpora majoritariamente em inglês, está sendo desafiada por modelos especializados, menores e mais baratos, treinados em línguas e contextos específicos. A própria Maritaca já lançou o Sabiá-3 e o Sabiá-4, com versão pequena (Sabiazinho-4) e janela de contexto de 128 mil tokens.
Não é caso isolado. Em 2026, levantamento da IDC apresentado no LATAM Tech Insight Breakfast estimou que o Brasil deve responder por cerca de 41,7% do mercado latino-americano de IA, com gasto da ordem de US$ 4,2 bilhões. México aparece em seguida com 23,8%. Modelos verticais e modelos de domínio brasileiro tendem a sair na frente em casos de uso que envolvem direito, saúde, educação e atendimento ao cidadão.
A lente brasileira aqui é clara. Quem treina o modelo decide qual cultura está no idioma, qual jurisprudência é citada, qual história é o repositório. Modelo de linguagem é, no fim, lastro de quem conta. Versão estatística, com peso.
A próxima fronteira do Brasil em IA talvez não seja construir o maior modelo geral. Talvez seja construir o melhor modelo doméstico, treinado em corpus brasileiro, com regras brasileiras, contado em português. Se o Pix vingou nos pagamentos, não há motivo estrutural para o país não vingar também no idioma de máquina que vai ler todos os contratos, contas e prontuários da próxima década.
SAI COM ESSA
Maria da Conceição Tavares, economista, em frase repetida ao longo da carreira pública para criticar indicadores que não capturam bem-estar real:
“Ninguém come PIB.”
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