CÓDIGO VITAL
Uma gota de sangue que vira exame em 30 minutos, uma IA que prevê a piora antes do médico e o DNA brasileiro entrando no mapa da medicina. A virada que o país ainda não nomeou.

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Numa farmácia de bairro, alguém estende o dedo, deixa cair três gotas de sangue num cartucho e, meia hora depois, recebe no celular um exame que antes exigia laboratório, fila e três dias de espera.
Num hospital, um software varre os dados de cada leito a cada 3,8 segundos e avisa a equipe que um paciente vai piorar: antes de o paciente saber, antes de o monitor apitar, antes de virar emergência.
Num apartamento, às onze da noite, uma pessoa que nunca teria coragem de entrar num consultório abre o aplicativo e começa a terapia que vinha adiando há anos.
E num tubo de saliva, o DNA de um brasileiro entra, pela primeira vez, num banco genético que se parece com ele, e não com um europeu de manual.
Quatro cenas, uma virada só. O Brasil sempre tratou saúde como conserto: a fila do SUS, o pronto-socorro lotado, o diagnóstico que chega quando a doença já chegou primeiro. A medicina brasileira foi treinada para apagar incêndio. O que essas quatro cenas mostram é outra coisa: uma saúde que age antes. Antes do sintoma, antes da internação, antes da conta cara.
Não é caridade tecnológica nem futurologia. É mercado. O país tem hoje mais de 950 healthtechs mapeadas, um setor que cresce cerca de 25% ao ano. E mais da metade dos adultos brasileiros convive com pelo menos uma doença crônica: 52%, ou 57,4 milhões de pessoas, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE. A maior conta de saúde do país é justamente a que dá para antecipar. Quem aprende a ver antes, gasta menos depois. E começa a faturar com o que o sistema sempre tratou como despesa.
A tese desta edição cabe num batismo, que a gente revela lá embaixo. Por enquanto, fica a virada: a saúde brasileira parou de esperar a doença. Começou a correr na frente dela.
E a corrida tem endereço. Fica numa cidade que ninguém associa a laboratório.
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ONDE A COISA ACONTECE
Curitiba (PR)

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Curitiba é conhecida por ônibus que viraram modelo de urbanismo, por parques e por um certo orgulho de cidade que faz as coisas no horário. Não é o primeiro nome que vem à cabeça quando se fala em diagnóstico de ponta. É exatamente por isso que ela merece a abertura.
Em 2016, nasceu ali a Hilab, uma healthtech que fez uma pergunta simples e incômoda: por que o exame de sangue precisa do laboratório, se o laboratório pode caber num aparelho? A empresa desenvolveu um dispositivo de point-of-care que, com poucas gotas de sangue, roda exames e devolve o resultado em até 30 minutos. A amostra é lida primeiro por inteligência artificial e depois conferida por um profissional de saúde a distância; o aparelho fica na farmácia, no posto, no consultório do interior, onde o laboratório tradicional nunca chegou.
A velocidade só importa porque vem com confiabilidade auditável. Os exames seguem o controle de qualidade da RDC 302 da ANVISA, a empresa mantém as certificações ISO 9001 e ISO 13485, participa do ensaio de proficiência da Controllab (a maior referência brasileira de controle de qualidade laboratorial) e valida cada novo teste contra o método laboratorial padrão-ouro, com estudos revisados por pares publicados em periódicos do grupo Nature (a Scientific Reports em 2022 e a Communications Medicine em 2025). Não é o exame mais rápido às custas de ser pior. É mais rápido sendo comparável.
O detalhe que importa não é o aparelho. É a inversão de lógica. No modelo antigo, a prevenção dependia de o paciente chegar até o exame: pegar transporte, enfrentar fila, ter dinheiro e tempo. A Hilab inverteu a seta: fez o exame chegar até o paciente. E exame que chega vira diagnóstico precoce, que é o nome técnico de prevenir.
Curitiba não é acidente nesse mapa. O Paraná é uma das principais vocações de healthtech do país: o estado tem mais de 120 startups de saúde e bem-estar mapeadas, segundo levantamentos do ecossistema local, e Curitiba figura entre os maiores ecossistemas de startups da América Latina. A cidade do ônibus virou, sem alarde, uma capital silenciosa da saúde 4.0.
Mas exame que chega ao paciente só serve se souber ler o corpo de quem o recebe. E, até ontem, a medicina lia o corpo de outra pessoa.
ESCUTA FINA
A voz desta edição é a de Lygia da Veiga Pereira, física de formação, geneticista, professora do Instituto de Biociências da USP e uma das cientistas que colocou o Brasil no mapa mundial da genômica. Ela lidera o projeto DNA do Brasil, que deu origem a uma iniciativa maior, hoje ligada ao Programa Genomas Brasil do Ministério da Saúde, e fundou a Gen-t, com a meta de sequenciar o genoma de 200 mil brasileiros.

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A tese de Lygia é tão simples quanto desconfortável: a medicina de precisão que o mundo está construindo foi escrita sobre o DNA errado. Os grandes bancos genéticos do planeta são formados, na esmagadora maioria, por populações brancas, europeias e norte-americanas. Quando um exame genético calcula o seu risco de uma doença, ele compara o seu DNA com o de gente que, geneticamente, não é você. Para o brasileiro, produto de uma mistura única de ancestralidade indígena, europeia e africana, isso significa diagnóstico menos preciso e tratamento pior calibrado.
Em maio de 2025, um estudo liderado por pesquisadores da USP, parte do projeto DNA do Brasil, analisou o genoma de 2.723 brasileiros e revelou cerca de 8,7 milhões de variantes genéticas nunca antes descritas em nenhuma outra população do mundo, dezenas de milhares delas com impacto potencial na saúde. O trabalho foi publicado na revista Science. Numa frase que resume a missão, Lygia diz: "Vamos incluir o Brasil na medicina de precisão". E completa, noutra ocasião, a chave de leitura: "a ciência do genoma precisa de diversidade".
Por que ela, agora. Porque a diversidade que o Brasil sempre tratou como tema de identidade está virando, no laboratório, vantagem científica concreta: a miscigenação que nos define é também o dado que o resto do mundo não tem. E porque o momento é raro: a genômica mundial acordou, tarde, para o problema de ter estudado quase só populações brancas, e o Brasil chega a essa mesa com a coleção de variantes que ninguém mais tem. A medicina personalizada brasileira deixou de ser promessa e virou ciência publicada.
Lygia mostra o corpo que a medicina precisa aprender a ler. Dois desvios mostram onde a tecnologia já está lendo, e o que isso destrava
BONS DESVIOS

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Desvio um: a mente saiu do divã e entrou no aplicativo. Durante décadas, terapia no Brasil foi privilégio de quem tinha dinheiro, tempo e coragem de ser visto entrando num consultório. A saúde mental digital quebrou as três barreiras de uma vez. Plataformas como a Zenklub reúnem centenas de especialistas (psicólogos, psicanalistas, terapeutas), acessíveis por vídeo, com preço e horário na tela, inclusive às onze da noite. Segundo a Associação Brasileira de Startups, o número de plataformas de terapia online, autocuidado e suporte psicológico cresceu cerca de 35% no último ano. A linha que o leitor não espera vem no contorno: parte dessas plataformas já usa inteligência artificial para conduzir diálogos terapêuticos e prever crises, o que abre a pergunta incômoda de quem guarda, e o que faz, com o dado mais íntimo que existe. O brasileiro começou a cuidar da mente pelo mesmo aparelho em que adoece de comparação. A ferramenta é a mesma. Muda o uso.
Desvio dois: a clínica que nasceu na favela e virou prevenção de baixo custo. Em 2011, no coração de Heliópolis, em São Paulo, nasceu a dr.consulta com uma aposta que o setor achava ingênua: oferecer consulta e exame de qualidade, com preço fixo e baixo, para quem o sistema privado ignorava e o público não dava conta. Mais de uma década depois, a empresa já atendeu cerca de 4 milhões de brasileiros, faz por volta de 1,5 milhão de consultas por ano em 29 centros médicos e sustenta 96% de adesão aos seus protocolos clínicos. Escala e qualidade não são inimigas quando o preço fixo, entre R$ 99 e R$ 120, cabe no bolso de quem o sistema ignorava. A tensão analítica é o ponto: isso não é filantropia, é modelo de negócio, e é prevenção. Consulta acessível significa diagnóstico cedo, que significa menos pronto-socorro, menos internação, menos custo lá na frente. O desvio é duplo: o mercado descobriu que atender a maioria com preço justo é viável, e descobriu que a porta de entrada barata é, em saúde, a mais lucrativa de todas, para o paciente e para quem a opera.
Os desvios mostram a tecnologia chegando à mente e ao bolso. Tem quem tenha feito a tecnologia chegar ao lugar mais difícil: a beira do leito, no segundo em que a vida vira estatística.
QUEM MOVE
JACSON FRESSATTO
Ele não construiu um software. Construiu o aviso que ele não teve.
Em 2010, a filha dele, Laura, nasceu prematura. Nos primeiros dias de vida, o quadro clínico piorou sem que ninguém percebesse a tempo. Veio o choque séptico. Laura morreu aos 18 dias. Jacson, arquiteto de sistemas, fez a pergunta que só um pai enlutado e um engenheiro fariam juntos: e se o hospital tivesse conseguido ver a piora antes de ela ser visível?

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Em 2016, em Curitiba, ele fundou a healthtech que leva o nome da filha: a Laura. É um sistema de inteligência artificial que se conecta aos dados do hospital (UTI, laboratório, farmácia, prontuário) e cruza tudo em tempo real para prever a deterioração clínica de um paciente, especialmente a sepse, antes que ela se instale. A cada 3,8 segundos, a Laura varre as informações dos leitos e dispara alertas. Desde 2016, foram cerca de 1,2 milhão de pacientes conectados, e os hospitais que a usam relatam reduções de mortalidade que chegam a 25%: num estudo de antes e depois com 55 mil pacientes, a taxa caiu de 4,33% para 1,64%.
O detalhe que define o personagem é para onde ele apontou a tecnologia. Pelo Instituto Laura Fressatto, o sistema é levado a hospitais públicos e filantrópicos, o lado do atendimento onde sepse mata mais e tecnologia chega menos. A sepse é a doença que mais mata nas UTIs brasileiras: ocupa cerca de 30% dos leitos de terapia intensiva e tem letalidade em torno de 55%, segundo o estudo SPREAD, do Instituto Latino-Americano de Sepse. Cada hora de antecipação é, literalmente, vida.
A dimensão que só Jacson abre nesta edição é a mais radical da prevenção: não evitar a doença lá na frente, mas enxergar a morte chegando em tempo de mudar o desfecho, dentro do hospital, no SUS, no segundo decisivo. A Hilab fez o exame chegar ao paciente. A Laura fez o hospital enxergar antes. Quem quiser ver essa fronteira de perto tem data e endereço.
Antes do futuro, dois encontros marcados.
POR ONDE ANDAR
Para quem quer ver a tendência de perto, dois marcos no calendário: os dois em setembro, os dois a um avião de distância.
Healthcare Innovation Show (HIS), 16 e 17 de setembro de 2026, no São Paulo Expo, organizado pela Informa Markets. É um dos maiores encontros de inovação em saúde da América Latina, onde hospitais, operadoras e healthtechs se sentam à mesma mesa para discutir o que sai do laboratório e entra na rotina do paciente.
HealthTech Summit Rio 2026, 23 e 24 de setembro de 2026, no Centro de Convenções RB1, no Rio de Janeiro. Na sua 6ª edição, com o tema da saúde humanizada por dados e precisão, é a vitrine de quem está construindo a saúde digital brasileira de baixo para cima.
São Paulo e Rio, a indústria e a startup, o hospital e o app. Os dois eventos contam as duas faces de uma mesma virada. Mas nenhuma feira muda o jogo sozinha. Quem muda é a regra, e tem uma lei recente que reescreveu o que é possível fazer com a saúde a distância no Brasil.
UM TROÇO IMPORTANTE
A Lei nº 14.510, de 27 de dezembro de 2022
A Lei da Telessaúde fez algo que a pandemia tinha improvisado e o país precisava tornar permanente: autorizou e regulamentou a telemedicina em todo o território nacional. Ela alterou a Lei Orgânica da Saúde (Lei 8.080/1990), revogou a norma emergencial de 2020 e passou a ser detalhada pela Resolução CFM 2.314/2022.
Leitura dupla, como manda a casa.
O que ela faz: dá segurança jurídica definitiva à consulta a distância. Tira a telemedicina do limbo do "vale enquanto durar a emergência" e a transforma em direito permanente, com consentimento do paciente, registro profissional e garantia de atendimento presencial sempre que pedido. Para o interior, para os vazios assistenciais, para quem mora a horas do especialista mais próximo, isso é acesso onde antes havia distância.
O que ela não resolve: a lei autoriza a consulta a distância, mas não entrega a internet que a viabiliza, nem o letramento digital de quem mais precisa. Telemedicina sem banda larga e sem atenção primária estruturada vira consulta avulsa: atende o episódio, não constrói o cuidado contínuo que previne de verdade. A regra mudou. O fosso digital, ainda não. O direito existe; a infraestrutura para exercê-lo chega devagar.
Enquanto a lei abre a porta da saúde a distância, os sinais de que a prevenção virou mercado se espalham por setores que raramente conversam.
JÁ TÁ ROLANDO

[ CÓDIGO VITAL ]
Os sinais de que o Brasil parou de esperar a doença estão espalhados do laboratório público à carteira de plano de saúde, e o capital, mesmo num ano mais magro, não saiu da sala: as healthtechs brasileiras movimentaram cerca de R$ 799 milhões em 40 negócios em 2024 (Liga Ventures), e a América Latina viu o investimento no setor subir 37,6%, para US$ 253,7 milhões, com o Brasil concentrando a maior fatia das healthtechs investidas da região (Distrito/ABSS). Cinco sinais, com etiqueta.
[Imunização · 2025–2026] Em dezembro de 2025, a ANVISA aprovou a vacina contra a dengue do Instituto Butantan, a primeira do mundo em dose única, com 74,7% de eficácia contra a dengue sintomática na faixa de 12 a 59 anos. A vacinação pelo SUS começou em fevereiro de 2026, gratuita, imunizando primeiro os profissionais de saúde da atenção primária: o Ministério da Saúde comprou 3,9 milhões de doses e montou uma estratégia piloto em Botucatu (SP), Maranguape (CE) e Nova Lima (MG) para medir o impacto na transmissão. Prevenção em estado puro, e 100% com selo nacional.
[Doenças Crônicas · 2025] O monitoramento remoto de crônicos deixou de ser piloto e virou rotina: healthtechs cruzam dados de dispositivos conectados para flagrar a descompensação de hipertensos, diabéticos e obesos antes da internação. A Conexa, que afirma alcançar dezenas de milhões de beneficiários, e a Klivo, que levantou R$ 45 milhões de investidores como o Hospital Israelita Albert Einstein, apostam no mesmo princípio: gerir a crônica é prevenir a internação.
[Saúde Suplementar · 2024–2025] A Alice, operadora que coloca a atenção primária no centro do plano, ultrapassou 40 mil membros (alta de 55% no ano) e fechou 2024 com receita acima de R$ 350 milhões, quase 70% maior que a do ano anterior. E o modelo preventivo aparece no número que importa: NPS de 76 entre as empresas-clientes, 86% dos membros se declarando com saúde boa ou excelente, e um reajuste de 11,21% em 2024, bem abaixo da média de mercado, perto de 19%, segundo a operadora. Gente acompanhada antes do agravamento adoece menos, e custa menos. O modelo preventivo deixou de ser discurso e virou linha de receita.
[Nutrição & Bem-estar · 2021–2022] A prevenção também virou prateleira. A PuraVida, marca brasileira de nutrição e bem-estar criada em 2015, faturou cerca de R$ 300 milhões em 2021 e, em 2022, foi comprada pela Nestlé Health Science (o braço de saúde da gigante suíça) para entrar de vez no mercado de vitaminas e suplementos. Quando uma multinacional precisa comprar para alcançar o consumidor que cuida de si, o recado é claro: bem-estar preventivo deixou de ser nicho fitness e virou ativo estratégico.
[Genômica Pública · 2025–2026] O Programa Genomas Brasil, do Ministério da Saúde, mira 100 mil genomas sequenciados até o fim de 2026: cerca de 36 mil já feitos e outros 31 mil financiados, apoiados por cinco centros de sequenciamento. O Estado começou a montar a infraestrutura da medicina de precisão dentro do SUS. A diversidade brasileira está virando, enfim, política pública de saúde.
Junte os cinco sinais, da vacina ao genoma, do plano de saúde à prateleira do supermercado, e o desenho aparece. A saúde brasileira está aprendendo a agir antes. E esse movimento ganha nome: CÓDIGO VITAL.
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SAI COM ESSA
Em 1909, um médico de 30 e poucos anos foi mandado para Lassance, um vilarejo de Minas Gerais, para combater a malária que atrapalhava a construção de uma ferrovia. Chamava-se Carlos Chagas, pesquisador do Instituto de Manguinhos. No meio do trabalho, ouviu falar de um inseto que picava as pessoas à noite, dentro das casas de pau a pique: o barbeiro.

Carlos Chagas em seu laboratório no Instituto Oswaldo Cruz. Manguinhos, Rio de Janeiro
Crédito: Acervo Casa de Oswaldo Cruz
O que Chagas fez a seguir não tem outro caso igual na história da medicina. Sozinho, ele descreveu a doença inteira: encontrou o parasita (o Trypanosoma cruzi), identificou o inseto que o transmitia, desvendou o mecanismo de transmissão e descreveu o quadro clínico nos pacientes. Vetor, agente, transmissão e sintoma, tudo por um único pesquisador. Antes de Chagas, ninguém sabia que a doença existia. Depois dele, ela tinha nome, causa e, o que mais importa para esta edição, forma de prevenir: melhorar a moradia, combater o barbeiro, cortar o ciclo antes da picada.
Chagas viu a doença inteira a olho nu, num vilarejo, com um microscópio e uma teimosia. O Brasil levou décadas para agir sobre o que ele enxergou num instante: a doença de Chagas ainda vive no corpo de cerca de 3 milhões de brasileiros, mata perto de 4.500 por ano e segue subatendida, num país que só mira eliminá-la em 2030. Essa é a tensão que atravessa toda esta edição: o país quase sempre soube ver antes. O que faltava era ferramenta para agir antes.
Agora um software vê a sepse antes do médico. Um banco genético vê a doença antes de ela aparecer. Uma gota de sangue vira exame antes da fila. A tecnologia que está nascendo no Brasil não inventou a vocação de enxergar primeiro. Só deu, enfim, a chance de não chegar atrasado de novo.
Ver antes sempre foi metade da medicina. A outra metade, o Brasil está começando a ter agora: agir a tempo.
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