COMPASSO #9

Um radar sobre o Brasil que cria e inova.

O BRASIL NÃO SE MOVE DE UM JEITO SÓ. NÃO TEM COMO.

Enquanto o mundo escolhe o elétrico puro, o Brasil reinventa a mobilidade, do ribeirinho amazônico ao táxi aéreo elétrico.

imagem gerada com IA - Tendência Path - Brasil Flex

No interior paulista, um Toyota Mirai percorreu 140 km com 1 kg de hidrogênio produzido no laboratório do IPT, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo. Hidrogênio feito de etanol de cana. O carro chegou a São José dos Campos tendo emitido, ao longo de todo o percurso, vapor d'água. Nada mais. Na Amazônia, famílias ribeirinhas que antes gastavam 40% da renda em diesel estão trocando as rabetas barulhentas por barcos elétricos silenciosos. Em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Fortaleza, motoboys escolhem motos elétricas e derrubam em 70% os custos com combustível. E a menos de 50 km de São José dos Campos, onde, em 1953, um engenheiro catarinense inventou o primeiro motor a álcool do mundo, começa a tomar forma, em Taubaté, a fábrica que vai produzir o primeiro táxi aéreo elétrico do Brasil.

Do ribeirinho ao eVTOL. Esse é o Brasil que a gente vai cobrir hoje.

Mas mobilidade não é só hardware. Enquanto o mundo debate qual motor instalar, o Brasil também responde a uma pergunta menos vistosa, e talvez mais importante: quem coordena tudo isso? Quem garante que o ônibus elétrico chega no horário, que a frota municipal se distribui direito, que o gestor público decide com base em dado real e não em intuição? Desde 2014, uma startup brasileira chamada Scipopulis vem construindo essa resposta com software. Mais sobre ela lá embaixo.

A narrativa global sobre mobilidade limpa parte da ideia de uma corrida única, rumo a um destino único: o carro elétrico a bateria, com os países do Norte puxando a largada. Nessa leitura, o Brasil estaria atrasado. A gente discorda.

O Brasil não está em atraso. Está em faixa própria.

A faixa do Brasil é a da multimatriz: motor flex que aceita etanol ou gasolina sem o motorista precisar decidir, etanol de cana que reduz até 70% das emissões, hidrogênio produzido a partir do próprio etanol, biometano extraído do lixo urbano, e-motos que democratizam a mobilidade do trabalho, barcos elétricos que abrem o interior da Amazônia sem diesel, eVTOLs concebidos por engenheiros brasileiros e dados que tornam toda essa infraestrutura inteligente. Não é um plano. É o que já está acontecendo.

Essa multimatriz não é acidente nem gambiarra. São 73 anos de trajetória, uma lei aprovada por unanimidade no Congresso e R$ 260 bilhões em investimentos privados projetados até 2037.

Para quem quer a história completa, dos experimentos de Stumpf ao IPT de 2026, passando pelo Proálcool, o motor flex e o porquê o Brasil tem a matriz de descarbonização mais sofisticada para países tropicais, acesse aqui:

Nesta edição, a tendência que batizamos lá embaixo como Brasil Flex não fala sobre um combustível. Fala sobre um país que aprendeu a descarbonizar usando o que tem e que começa a perceber que esse jeito talvez seja o mais inteligente de todos.

Para entender de onde vem essa vocação, existe um endereço exato no mapa brasileiro que precisa ser visitado.

ONDE A COISA ACONTECE

O vale onde o Brasil sempre inventou

imagem gerada com IA

Existe um trecho de apenas 50 quilômetros no interior de São Paulo que concentra, como poucos lugares no país, a memória e o futuro da mobilidade brasileira. É o eixo entre São José dos Campos e Taubaté, no Vale do Paraíba.

Em São José dos Campos, o aeroporto municipal carrega o nome do engenheiro Urbano Stumpf, que, em 1953, abriu um motor convencional nos laboratórios do ITA e o adaptou para rodar com álcool. Não havia crise do petróleo declarada ainda. Havia curiosidade. E um parafuso na bancada. Esse experimento virou o Proálcool, virou o motor flex, e virou a maior frota flex do mundo: hoje, mais de 90% dos carros novos vendidos no Brasil saem de fábrica prontos para aceitar etanol ou gasolina. Em junho de 2026, o círculo se fechou: um Toyota Mirai partiu de São Paulo com 1 kg de hidrogênio produzido no IPT e chegou a São José dos Campos, ao aeroporto que carrega o nome de Stumpf, sem emitir nada além de vapor d'água.

A menos de 50 km dali, em Taubaté, a Eve Air Mobility está montando sua primeira fábrica de eVTOLs, os táxis aéreos elétricos que a empresa, spinoff da Embraer, quer colocar nos céus das cidades a partir de 2027. O mesmo Vale do Paraíba que, em 1953, inventou o motor a álcool agora começa a construir o motor elétrico do ar.

Mas toda essa trajetória nasce de uma pergunta que um físico paulistano colocou na mesa cinquenta anos atrás e que a física nunca mais deixou de confirmar.

ESCUTA FINA

"O Brasil é um dos poucos países do mundo que pode ser autossuficiente em energia."

José Goldemberg, físico da USP, um dos idealizadores do Proálcool e coautor do estudo publicado na revista Science em setembro de 1978 que demonstrou pela primeira vez ao mundo a viabilidade energética do etanol de cana. Selecionado pela Time na lista Heroes of the Environment de 2007, na categoria Líderes e Visionários ao lado de Al Gore, Mikhail Gorbachev e Angela Merkel.

A frase tem décadas. A precisão dela, em 2026, é assustadora. Goldemberg não falava de esperança. Falava de física. Um país com o sol, a chuva, o campo e a engenharia do Brasil é estruturalmente diferente de um país que depende de importar energia. Essa estrutura começa, agora, a se traduzir em motor, em barco, em táxi aéreo e em software.

Goldemberg mapeou a autossuficiência como possibilidade. Dois projetos brasileiros estão testando os limites do que ela significa quando levada a extremos: um nos céus, outro nos rios.

BONS DESVIOS

Dois ângulos que abrem domínios que o senso comum ainda não chegou.

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No Ar

A Eve Air Mobility é uma empresa de origem brasileira, spinoff da Embraer, listada na Bolsa de Nova York, que desenvolve, que desenvolve um veículo de decolagem e pouso vertical elétrico: o eVTOL, que o mundo chama de táxi aéreo. Em dezembro de 2025, o protótipo em escala real realizou seu primeiro voo nas instalações da Embraer em Gavião Peixoto (SP). Em março de 2026, voou diante do presidente Lula. A Eve já soma cerca de 2.800 pedidos globais , entre ordens firmes e cartas de intenção, avaliados em aproximadamente US$ 14 bilhões. O BNDES aprovou R$ 500 milhões para a fábrica em Taubaté, com capacidade para 480 unidades por ano. Os voos comerciais estão previstos para 2027. A empresa que inventou o Bandeirante, o Embraer 145 e o E175 está inventando o próximo passo da mobilidade urbana e faz isso no Brasil, para o Brasil e para o mundo.

imagem gerada com IA

No Rio

A E-UBÁ Amazônia é uma das pioneiras brasileiras no setor de eletromobilidade fluvial. Produz kits de conversão, chamados de E-Rabeta, capazes de transformar embarcações convencionais em barcos 100% elétricos, com motor elétrico, propulsor e bateria de lítio. Nas comunidades ribeirinhas da Amazônia, famílias chegam a gastar 40% da renda mensal em diesel. Os kits prometem reduzir substancialmente esse custo, além de eliminar o barulho e a poluição que o motor a diesel impõe ao cotidiano e aos ecossistemas fluviais. A empresa prevê os primeiros produtos comerciais ainda em 2026 e mira expansão para outros municípios da Amazônia Legal. Silêncio, nesse caso, tem custo de oportunidade.

Do laboratório ao rio, ao céu, todos esses pontos precisam de alguém que saiba conectá-los. De preferência, alguém que tenha ficado em pé em todas as mesas onde o futuro do transporte é decidido.

QUEM MOVE

SUZANA KAHN RIBEIRO

ilustração gerada com IA

Ela nunca vendeu carro. Vendeu argumento.

Professora da COPPE/UFRJ e hoje diretora do centro de pesquisa em engenharia que formou parte importante dos engenheiros que constroem o Brasil, Suzana passou décadas mapeando como o transporte emite, quanto emite e o que pode mudar. Quando o IPCC montou o capítulo sobre transportes para o 5º Relatório de Avaliação, a mesma publicação que, em 2014, estabeleceu as bases científicas do Acordo de Paris, ela estava lá: Vice-Presidente do painel e a principal referência brasileira naquela mesa técnica que reúne alguns dos maiores cientistas do clima do mundo. Em Genebra, Estocolmo ou Bangkok, o argumento era sempre o mesmo: o transporte é o setor mais difícil de descarbonizar, e o Brasil carrega uma vantagem que muitos países gostariam de ter: o biocombustível já está no bolso.

Voltou ao Rio como Secretária de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente (2008-2010) e depois como Subsecretária de Meio Ambiente do Estado do Rio de Janeiro. Hoje, na UFRJ, pesquisa mobilidade sustentável, energia renovável e cidades. Preside o comitê científico do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. É a engenheira que passou 15 anos dentro das instituições que vão decidir o quanto o Brasil vai lucrar, ou pagar, com a transição que já começou. Voltou para a universidade porque é de lá que sai o argumento que antecede a política.

Para quem quer se colocar no caminho que Suzana aponta, dois eventos concentram onde esse futuro está sendo construído, e onde os engenheiros e gestores que vão construí-lo se encontram.

POR ONDE ANDAR

Se você trabalha em qualquer ponto da cadeia de transporte, esses são os encontros do segundo semestre que valem a viagem.

  1. 23º Fórum SAE BRASIL da Mobilidade (Seção PR/SC):
    5 e 6 de agosto de 2026, Centro de Eventos da FIEP - Curitiba (PR)

    Dois dias de programação para quem quer entender para onde vai o motor brasileiro. O tema deste ano é "TecnologIA, Competitividade e Sustentabilidade", o AI no meio da palavra não é acidente, é proposta. O fórum reúne engenheiros, líderes industriais, pesquisadores e toda a cadeia da mobilidade: do biocombustível ao eVTOL, do software ao powertrain. Um dos raros eventos onde a cana e o código dividem o mesmo palco. Informações e inscrições: saebrasil.org.br

  2. Congresso SAE BRASIL 2026:
    7 e 8 de outubro, Pavilhão da Bienal, Parque Ibirapuera - SP

    O maior encontro técnico-científico da engenharia de mobilidade no Brasil. Painéis sobre descarbonização, hibridização, biocombustíveis e futuro do powertrain. É ali que a engenharia encontra o mercado e onde trabalhos técnicos começam a virar produto, regulação e aposta industrial para os próximos cinco anos. Se você trabalha em qualquer ponta da cadeia de transporte, este é o calendário que vale marcar. Inscrições e programação: saebrasil.org.br/congresso

Mas o encontro mais importante deste ciclo não foi num evento. Foi numa votação unânime no Congresso Nacional, em outubro de 2024.

UM TROÇO IMPORTANTE

Em 8 de outubro de 2024, o presidente Lula sancionou a Lei do Combustível do Futuro (Lei 14.993/2024).

imagem gerada com IA

Aprovada com unanimidade no Congresso, o que, em 2024, não era pouca coisa, é a legislação mais abrangente de descarbonização do transporte já aprovada no Brasil, e uma das mais ousadas do mundo.

O que ela faz: eleva o etanol na gasolina de 27% para 30% (E30, em vigor desde agosto de 2025); aumenta o biodiesel no diesel para 15% (B15); cria o Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação, obrigando os voos domésticos a usarem SAF a partir de 2027; institui a rastreabilidade de origem do biometano; e integra o RenovaBio, o Mover e o Proconve numa única arquitetura de política climática. Com R$ 260 bilhões em investimentos privados projetados até 2037, a lei não é decreto de intenções, é a âncora que permite ao mercado planejar.

O que ela não resolve: não toca na infraestrutura de recarga para elétricos a bateria, não cria incentivo fiscal específico para o VE puro e não define uma data para o fim dos motores a combustão. O Brasil apostou explicitamente na diversidade de soluções e a lei é o espelho fiel dessa escolha.

A lei é a arquitetura. Agora veja os tijolos que já estão em movimento, nos ônibus, nas motos, nos dados e nos céus das cidades brasileiras.

JÁ TÁ ROLANDO

As tendências brasileiras mapeadas e nomeadas pelo Path.

ilustração gerada com IA

[ BRASIL FLEX ]

O Brasil descarboniza o que move, não de um jeito só, mas de todos os jeitos que tem.

Estatística-âncora: Mais de 90% dos carros novos vendidos no Brasil saem de fábrica com motor flex desde 2008, a maior frota flex do mundo. Se ela operasse integralmente com etanol, o Brasil lideraria a descarbonização global do transporte. (ANFAVEA, 2025.)

Olhar Path: A transição energética do transporte foi narrada como corrida de uma faixa só. O Brasil está mostrando que essa narrativa tem um viés: ela foi escrita a partir de países sem sol abundante, sem cana, sem rios navegáveis, sem a cultura da moto e do barco. A tendência Brasil Flex é a da potência que descarboniza usando a diversidade que tem, e que começa a entender que diversidade de solução é, ela mesma, uma vantagem estrutural. Quem tem uma só resposta depende de uma só cadeia. Quem tem muitas, adapta.

Sinais etiquetados:

  • Transporte Urbano · SP · 2026: A Prefeitura de São Paulo criou o Programa BioSP, que incorpora biometano progressivo nos ônibus da cidade. O combustível vem do lixo orgânico e do esgoto produzido pela própria metrópole. O resíduo de 22 milhões de pessoas vira propulsão, sem trocar a frota toda de uma vez. Biometano não é tendência futura; é ônibus circulando agora.

  • Gig Economy & Entrega · Nacional · 2025: Na COP30, em Belém, o iFood anunciou o maior programa de descarbonização de delivery da América Latina: R$ 300 milhões para ampliar o acesso de entregadores a e-bikes e e-motos. Em parceria com a Tembici, o plano é colocar até 45 mil bicicletas elétricas à disposição dos motoboys, 20 mil até 2027, com redução estimada de 7.500 toneladas de CO₂ por ano. Para o entregador, a conta é imediata: 70% a menos nos gastos com combustível e manutenção. O motoboy vira o protagonista inesperado da descarbonização urbana.

  • Software & Dados · SP/RJ/RS/SC · 2014–2026: Mobilidade não é só o que move, é também o que pensa. A Scipopulis é uma startup brasileira (SP, desde 2014) que desenvolve software de inteligência para cidades: o Trancity monitora em tempo real GPS, bilhetagem, semáforos e sensores de ônibus de cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Florianópolis. Um estudo com os dados do Trancity mostrou que corredores exclusivos de ônibus aumentariam a velocidade média das vias paulistanas em até 30%, sem comprar um só veículo novo. O Trancity Xpress vai além: planeja a eletrificação da frota municipal inteira, simulando topografia, demanda energética e riscos de alagamento em cada cenário. A empresa foi reconhecida pela OCDE como caso de sucesso internacional, apresentou na COP26 e COP27 e protagonizou um episódio do minidocumentário BBC/UITP "The Way We Move" no Rio. O piso da mobilidade do futuro é de dado.

  • Logística de Saúde & Drones · BA/MG · 2021–2024: A Speedbird Aero é a primeira empresa da América Latina certificada pela ANAC para transportar materiais biológicos por drone, aprovação concedida em fevereiro de 2024, depois de mais de 22 mil voos executados. Em parceria com o Grupo Fleury (via Laboratório Pardini, integrado à rede), opera duas rotas urbanas: em Salvador (BA), um corredor de 30 km com droneports distribuídos pela cidade, em funcionamento desde 2021; em Belo Horizonte (MG), uma rota de 5 km entre hospitais que o drone faz em 10 minutos, o carro leva até 1 hora no horário de pico. A lógica é cirúrgica: no trânsito, uma amostra pode demorar horas; no ar, minutos e o resultado de um exame pode mudar um diagnóstico, uma internação, um tratamento. A mobilidade que salva vidas não anda necessariamente em carro.

Lista de espera Path: A Brasil Flex é a quinta de uma série de tendências que estamos construindo sobre como o Brasil está reinventando as regras do jogo. Para ser um dos primeiros a acessar a plataforma completa de inteligência de tendências do Path, [clique e seja um dos primeiros a ter acesso].

E se há uma frase que resume o que esses sinais, juntos, estão tentando dizer, ela foi escrita antes de todos eles.


SAI COM ESSA

Em 1918, Alberto Santos Dumont publicou suas memórias. Deu ao livro o título:

“O Que Eu Vi, O Que Nós Veremos”

Ele havia inventado o voo. Sabia que o próximo seria mais elegante, mais silencioso e mais nosso.

  • Stumpf inventou o motor a álcool em 1953.

  • A Eve está inventando o motor elétrico do ar em 2025.

  • A Scipopulis ensina a cidade a pensar com dados.

  • O motoboy escolhe o elétrico porque é mais barato.

  • O ribeirinho troca o diesel pelo silêncio.

  • O drone pousa com a amostra antes do trânsito te dar uma chance.


    O que Santos Dumont viu foi apenas o começo.

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