COMPASSO #1
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UM ROBÔ BRASILEIRO EM INDIANA

imagem gerada com IA
Numa tarde de agosto de 2024, em um campo de soja em Indiana, um robô brasileiro fabricado em Araçatuba inclinou o painel solar e saiu para mais uma volta.
O nome dele é Solix. Robô agrícola autônomo, movido a energia solar, com câmeras de alta resolução, desenvolvido pela Solinftec, empresa brasileira de tecnologia para o agronegócio. Identificou invasoras. Pulverizou herbicida só onde elas apareceram. Voltou sozinho para recarregar na estação solar à beira do campo.
O operador americano, que também era filho de Deus, dormiu.
A cena tem qualquer coisa de fábula tecnológica invertida. O robô veio do interior paulista, atravessou o mapa, chegou ao Meio-Oeste americano e fez, em silêncio, o trabalho que o mundo costuma imaginar vindo sempre na direção contrária. Na safra de 2024, foram cinquenta como ele, em campos de Indiana e Illinois, lendo juntos mais de sessenta e cinco milhões de plantas, uma a uma.
A Solinftec foi fundada em 2007 pelo engenheiro cubano Britaldo Hernandez. Hoje administra 13 milhões de hectares em mercados como Brasil, Estados Unidos, Canadá, Colômbia e México, atende 85% dos plantios de cana brasileira e captou mais de 1,3 bilhão de reais em rodadas de investimento com investidores como TPG, Lightsmith, Unbox e YvY Capital. As três cooperativas americanas que adotaram o Solix declararam, ao final da safra de 2024, uma redução de 95% no uso de herbicida nas lavouras. A própria empresa repete o número em seu material institucional e comercial.
Mas toda promessa boa, quando cresce, acaba encontrando alguém com prancheta, método e paciência.
Três anos antes, em campos do Arkansas, o professor Jason Norsworthy começou a estudar um sistema concorrente: o See & Spray, da John Deere com a Blue River Technology. A pesquisa, com revisão por pares e três safras de teste de campo em soja, mediu redução entre 43% e 59% no uso de herbicida em aplicação pós-emergência.
Entre os cerca de 50% validados pela ciência e os 95% anunciados pela cooperativa, há mais do que uma diferença metodológica. Há uma distância de 36 a 52 pontos percentuais. É nessa distância que o marketing, a engenharia, a ciência e a reputação se encontram.
O que separa promessa de prova? Sem tirar os devidos méritos, a pergunta desta primeira edição é maior que uma empresa ou inovação isolada. O Brasil viveu uma década em que empresas, empresários, agências e marcas colocaram criatividade e tecnologia nacionais na fronteira mundial. Acumulamos lastro de quem faz. O próximo passo é o lastro de quem mede. Pesquisa da consultoria Market Analysis Brasil, publicada em 2024, indica que 85% das alegações ambientais em produtos brasileiros não resistem à verificação técnica. Estudo de 2024 da Bells & Bayes Rating Analytics, que analisou 191 empresas listadas no Novo Mercado da B3, mostra que 63% delas publicam algum relatório de sustentabilidade, mas apenas 29% têm os dados auditados externamente.
Para um país que criou algumas das publicidades mais premiadas do mundo, a próxima fronteira da criação talvez seja menos ruidosa e mais exigente: construir pontes auditáveis entre o que se diz e o que se prova.
O Path entra num Brasil onde a inovação já não precisa pedir licença para existir. Ela existe. Está no campo, no código, no design, na ciência, na favela, na floresta, na indústria criativa. A nova fronteira não é apenas inventar a tecnologia. É medir o que ela promete.
Quem mede chega antes. Quem só promete chega cansado, com a história pela metade.
ONDE A COISA ACONTECE
Sexta-feira de tarde, agosto, sala do INPE em São José dos Campos. O sistema PRODES libera os números anuais de desmatamento da Amazônia. Pesquisadores acompanham os dados chegando, hectare por hectare. Cada linha que aparece na tela vai virar manchete do dia seguinte em jornais do mundo inteiro.
Quase ninguém vê esse momento. Mas a sala é uma das infraestruturas invisíveis da transparência ambiental brasileira. O Brasil é uma das poucas potências florestais do planeta a publicar dados de desmatamento dessa qualidade, abertos, com metodologia auditável por terceiros.

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ESCUTA FINA
Antonio Donato Nobre, cientista brasileiro especializado na relação entre a Amazônia e o clima, ex-pesquisador do INPA e pesquisador associado ao INPE, é autor do relatório de referência O Futuro Climático da Amazônia (2014). Em entrevista à Deutsche Welle Brasil, em agosto de 2021:
“As remanescentes florestas na porção leste da Amazônia, locus do pior desmatamento no chamado arco do fogo, já mostram sintomas de terem cruzado o ponto de inflexão clima-vegetação, com áreas imensas mostrando o processo de savanização.”
A medição contínua do INPE é o que permite ouvir esse dado.
BONS DESVIOS
Para quem quiser ir mais fundo, quatro leituras brasileiras que conversam com o espírito desta edição.

Eliane Brum
Banzeiro Òkòtó, Eliane Brum, Companhia das Letras. A jornalista, que fundou a plataforma Sumaúma em Altamira, no Pará, em 2022, foi eleita Pensadora do Ano de 2025 pela revista britânica Prospect. O livro é uma viagem em primeira pessoa pela Amazônia que ela adotou como casa.

Ailton Krenak
Ideias para adiar o fim do mundo, Ailton Krenak, Companhia das Letras. O filósofo indígena, imortal da Academia Brasileira de Letras desde abril de 2024, propõe que a ideia de futuro como progresso linear é uma fabricação colonial. Leitura curta. Fica.

Aline Midlej e Edu Lyra
De Marte à favela, Aline Midlej e Edu Lyra, Planeta, 2024. A âncora do Jornal das Dez, na GloboNews, e o fundador da Gerando Falcões contam como a exploração espacial inspirou um dos maiores projetos brasileiros de combate à pobreza. Inovação que muda como se vive.

Valdely Kinupp e Harri Lorenzi
Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil, Kinupp e Harri Lorenzi, Instituto Plantarum, 2ª edição (2021). Guia que catalogou mais de uma década de trabalho de dois dos maiores estudiosos da flora brasileira. Virou referência para chefs, agricultores e curiosos de quintal (mais abaixo).
QUEM MOVE
VALDELY KINUPP REFERÊNCIA NO ESTUDO DE PANC

Foto: André Hawk para Festival Path - Amazônia 2021
Valdely Ferreira Kinupp é uma das pessoas que ajudaram o Brasil a olhar de novo para o próprio mato.
Botânico, pesquisador e professor do Instituto Federal do Amazonas, tornou-se referência no estudo das PANC, as plantas alimentícias não convencionais que sempre estiveram por perto, mas quase nunca entraram no cardápio oficial da modernidade. Ao lado de Harri Lorenzi, é autor de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil, livro que virou referência para chefs, agricultores, pesquisadores e curiosos de quintal.
Kinupp fez uma coisa rara: deu nome, imagem, contexto e uso para aquilo que muita gente passava por cima sem ver. Parece simples. Não é. Em tempos de inovação importada em embalagem brilhante, ele lembra que parte do futuro brasileiro ainda cresce na beira da estrada, no terreno baldio, no quintal da avó e na memória de quem sabia comer antes de virar tendência.
POR ONDE ANDAR
São Paulo Innovation Week. 13 a 15 de maio de 2026, Arena Pacaembu e FAAP. Esta edição do Compasso chega no dia dois do festival. Para quem está em São Paulo, ainda dá tempo de pegar o terceiro.
Brazil Week NYC. 11 a 14 de maio de 2026, em Nova York, organizada pela Brazilian-American Chamber of Commerce. Quatro dias entre Innovation Day na sede da Amazon, gala BrazilCham no American Museum of Natural History, painéis com governadores e o 15º LIDE Brazil Investment Forum no Harvard Club. Person of the Year 2026: José Auriemo Neto, da JHSF.
Rio2C. 26 a 31 de maio de 2026, Cidade das Artes, Rio de Janeiro. Tema deste ano: "Código de Sentido", a criação na era da inteligência artificial.
UM TROÇO IMPORTANTE
Um selo pequeno, colado em uma saca de café especial do Sul de Minas.
A sigla IG significa Indicação Geográfica, registro do INPI que certifica que o produto vem de um lugar específico e respeita um modo de produção verificado. O Brasil tem mais de cento e cinquenta IGs registradas: café da Mantiqueira, queijo Canastra, cachaça de Paraty, vinho do Vale dos Vinhedos, açaí de Feijó, no Acre (a primeira IG concedida para a fruta no país).
Não é tecnologia de ponta. É infraestrutura institucional brasileira de prova de origem. Funciona.

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SAI COM ESSA
Silvio Meira, professor emérito da Universidade Federal de Pernambuco, fundador do Porto Digital:
“Brasil tem que acabar com teatro na inovação e no empreendedorismo.”
Plataforma brasileira sobre inovação como forma de pensar e agir.
Festival · Consultoria · Radar de Tendências · Estúdio · Produtora
Treze anos apresentando o Brasil que se inventa.
