FÁBRICA VIVA
Num laboratório de Londrina, uma semente de soja toma banho de bactéria antes de ir para o chão. Aquela planta não vai receber um grama de adubo nitrogenado. Não precisa: o microrganismo que viaja grudado na semente puxa o nitrogênio do ar e entrega na raiz, de graça, safra afora.

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Numa cooperativa de Alagoas, esterco de gado entra num tanque e sai adubo. Cinco mil litros por dia, segundo a cooperativa, para cerca de mil cooperados que antes compravam de fora o que agora sai do próprio curral.
Num porto brasileiro, um navio despeja mais um pedaço das cerca de 45 milhões de toneladas de fertilizante que o país importou em 2025, recorde da série. O preço de cada saca daquele carregamento foi decidido longe dali, no câmbio e na geopolítica.
E num prédio do polo tecnológico de Campinas, uma startup usa inteligência artificial para reescrever o metabolismo de uma bactéria, prometendo fazer em dois meses o que a indústria levava dois ou três anos para desenvolver.
Quatro cenas, um paradoxo só. O Brasil alimenta o mundo com adubo dos outros: cerca de 85% do fertilizante que consome vem de fora, segundo o Ministério da Agricultura, em dado de 2024. E é, ao mesmo tempo, o país que mais aprendeu a trocar esse adubo por vida. Numa lavoura só, a soja, 85% da área brasileira é plantada com bactéria fixadora de nitrogênio, sem ureia, numa economia que a Embrapa calcula em bilhões de dólares por ano de insumo importado. O mesmo país que compra nutriente em navio fabrica nutriente em tanque.
Não é romantismo de orgânico nem futurologia de laboratório. É mercado. O setor de bioinsumos vendeu R$ 6,2 bilhões em 2025, cerca de 15% a mais que no ano anterior, e tratou 194 milhões de hectares, 28% a mais, segundo a CropLife Brasil. A Anpii-Bio, associação da indústria de inoculantes, fala em cerca de R$ 7 bilhões em 2025 e projeta chegar perto de R$ 10 bilhões até 2030.
É também lei. Desde dezembro de 2024 o Brasil tem uma Lei dos Bioinsumos, a primeira lei específica do país sobre o assunto, e ela autorizou o produtor a fabricar o próprio bioinsumo dentro da porteira. E é disputa: o decreto que diz como fazer isso venceu o prazo em dezembro de 2025 e, até a semana passada, ainda não tinha saído.
A tese desta edição cabe num batismo, que a gente revela lá embaixo. Por enquanto, fica a virada: o insumo mais caro da lavoura brasileira pode ser criado em vez de comprado. E o solo, tratado como fábrica viva, é a única fábrica que este país já tem instalada em cada hectare que possui.
E essa fábrica tem endereço de origem. Fica numa cidade que o Brasil associa a cana e a piada, não a bactéria.
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ONDE A COISA ACONTECE
Piracicaba (SP)

Foto: Denise Guimarães / Esalq-USP (reprodução livre mediante crédito, Jornal da USP)
O nome, em tupi, quer dizer "lugar onde o peixe para", por causa do salto do rio que corta a cidade. Hoje o que para em Piracicaba é outra coisa: gente que estuda solo, e que não vai mais embora.
São 423 mil habitantes (Censo 2022) e uma escola que manda no assunto desde 1901: a Esalq, Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, que abriu as portas naquele ano e entrou na USP em 1934. Há mais de um século é ali que o Brasil forma quem pensa a agricultura tropical, incluindo a agrônoma que você vai conhecer no "Quem move", turma de 1979. O PIB por habitante, R$ 104,8 mil em 2023, dá cerca do dobro da média nacional.
Em maio de 2016 o ecossistema de startups da cidade se batizou de AgTech Valley, e faz dez anos agora. O termômetro do país inteiro: o Radar Agtech Brasil de 2025, levantamento da Embrapa com a SP Ventures e a Homo Ludens, contou 2.075 agtechs, 5% a mais que no ano anterior.
O que faz de Piracicaba a capital silenciosa dos biológicos é a quantidade de gente fabricando vida em escala industrial.
A Gênica saiu de um professor da Esalq, Carlos Labate, com o empreendedor Fernando Reis. Levantou R$ 68 milhões em 2024, numa rodada liderada pela japonesa Mitsubishi, afirma já ter tratado mais de meio milhão de hectares e devolve 10% da receita para a pesquisa. A holandesa Koppert, pioneira mundial do controle biológico, no ramo desde 1967, escolheu a região para sua operação brasileira: fábrica de microbiológicos em Charqueada desde 2022, com R$ 70 milhões; centro corporativo na cidade desde fevereiro de 2025; e, segundo a imprensa especializada, R$ 890 milhões faturados no país em 2025. A Promip, com sede em Piracicaba e biofábrica em Engenheiro Coelho, cria ácaro predador e parasitoide como quem cria gado miúdo, e anunciou em 2023 capacidade de 200 toneladas por ano. A própria Esalq virou unidade Embrapii de biocontroladores, o que em bom português quer dizer laboratório público pesquisando sob encomenda da indústria.
Nem tudo saiu do papel, e vale dizer. As três fábricas de R$ 700 milhões que a Koppert anunciou para a cidade em 2024, com 400 empregos, ainda não começaram, e a própria empresa busca desde 2025 um sócio de cerca de R$ 600 milhões para bancá-las. O detalhe importa porque explica o setor: biológico cresce mais depressa em hectare do que em concreto. Nesse ramo, boa parte da fábrica é a própria fazenda.
Nas próximas semanas a cidade dá dois retratos de si mesma. No dia 29 de agosto abre a 53ª edição do Salão Internacional de Humor, criado em 1974, que este ano bota o algoritmo contra a alma no cartaz: "IA x IH: O Duelo do Século, Algoritmo vs. Alma". Em 15 e 16 de setembro, o Parque Tecnológico recebe a primeira Jornada de Desenvolvimento de Bioinsumos Agrícolas. A cidade que tira sarro do algoritmo é a mesma que ensina bactéria a trabalhar.
Antes de a bactéria virar produto, alguém precisou convencer o Brasil de que o solo estava vivo. Foi uma mulher, e ela escreveu isso em 1980.
ESCUTA FINA
A voz desta edição é a de Ana Maria Primavesi, agrônoma que nasceu na Áustria em 1920, chegou ao Brasil no fim dos anos 1940 e morreu em São Paulo, em janeiro de 2020, aos 99 anos, como a mãe da agroecologia brasileira. Na Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, onde deu aula de 1961 a 1974, ajudou a criar com o marido, Artur, o Instituto de Solos e Culturas e, em 1971, o curso de pós-graduação em Biodinâmica do Solo, o primeiro mestrado da universidade credenciado pelo MEC e pela Capes.

Foto: Luiz Prado / Pesquisa FAPESP. Reportagem: A guarda dos solos.
O livro é "Manejo ecológico do solo: a agricultura em regiões tropicais", publicado em 1980 pela Editora Nobel e até hoje em catálogo pela Expressão Popular, que abriu pré-venda de nova tiragem em março de 2026. A tese era herética para a época da Revolução Verde: o solo não é um substrato químico que se corrige com sacos de NPK, é um organismo, e a produtividade tropical depende de mantê-lo vivo, coberto e povoado de microrganismos. Ela mesma resumiu o ineditismo, segundo o acervo mantido pela família: "Nunca tinha havido um livro que tratava solo, plantas, adubação, produção, junto com a biologia e a microbiologia do solo, nessa época quase ignoradas, a não ser por algumas bactérias fixadoras de nitrogênio com que a Dra. Johanna Döbereiner trabalhava." Guarde esse nome. Ele volta no fim desta edição. A frase que se atribui a ela, e que virou lema de uma geração de agrônomos, é mais curta: "não existe solo rico ou pobre; existe solo vivo ou morto."
Por que ela, agora. Porque o mercado de R$ 6,2 bilhões que a CropLife mede em 2025 é, em boa parte, a versão industrial do que Primavesi receitava em 1980: alimentar a biologia do solo em vez de substituí-la. O reconhecimento veio tarde e veio de fora. Em 2012 ela recebeu o One World Award, prêmio internacional do movimento orgânico, pelo conjunto da obra. O Brasil, que a leu como militante, hoje a pratica como indústria. A microbiologia do solo que era "quase ignorada" virou linha de balanço.
Primavesi ensinou o solo vivo. Dois desvios mostram o que acontece quando ele vira fábrica: um em Alagoas, feito de esterco; outro em Campinas, feito de código.
BONS DESVIOS

Foto: Divulgação / Cooperativa Pindorama
Desvio um: a biofábrica do Nordeste que começa no curral.
A Cooperativa Pindorama, em Coruripe, Alagoas, reúne cerca de mil cooperados em 30 mil hectares. Desde 2022 mantém uma biofábrica que multiplica bactéria para os associados, e o litro desse biológico sai ao cooperado por R$ 6 a R$ 7, segundo o presidente, Klécio Santos.
Em 2025 veio a segunda camada: um sistema de compostagem líquida que pega o esterco bovino da própria cooperativa e devolve, segundo ela, cinco mil litros por dia de adubo biológico, com 50 mil litros de estoque. O gerente agrícola, Danilo Wanderley, diz acreditar que é a primeira cooperativa do Nordeste a oferecer esse tipo de bioinsumo em escala aos cooperados.
A sacada não está no tanque, está no mapa. Para chegar ao canavial alagoano, o fertilizante importado atravessa oceano, porto, rodovia e revenda. O da Pindorama atravessa a estrada de terra da fazenda. O que era problema de curral virou insumo que não paga frete.

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Desvio dois: a bactéria projetada como software.
Em julho de 2026, a Terra Genomics, startup que está montando seu laboratório no Polo de Alta Tecnologia de Campinas, captou R$ 18 milhões numa rodada liderada pela Pitanga Redux, fundo de deeptechs criado pelo biólogo Fernando Reinach, com a Bold.t Capital, segundo o AgFeed.
O que ela faz é o contrário do desvio um. Em vez de multiplicar o que a natureza já entrega, usa engenharia metabólica, biologia sintética e inteligência artificial para reprogramar microrganismo, e vende essa engenharia para as indústrias de biológicos.
A promessa da empresa, cujo CEO é Mateus Lopes, é reduzir o desenvolvimento de um novo bioinsumo de dois ou três anos para até dois meses. As duas estão na mesma tendência e em pontas opostas dela. Uma espalha a produção, a outra concentra o conhecimento. E o decreto que ainda não saiu, e que você encontra no "Troço importante", é justamente a linha que vai dizer quanto de cada ponta o Brasil quer.
Entre o esterco e o algoritmo tem uma cientista que passou quarenta anos escolhendo bactéria. O mundo acabou de premiá-la por isso.
QUEM MOVE
MARIANGELA HUNGRIA
Ela não inventou a bactéria. Ela passou a vida escolhendo a certa.
Nascida em São Paulo em 1958 e criada em Itapetininga, no interior paulista, formou-se agrônoma pela Esalq em 1979 e foi contratada pela Embrapa em 1º de dezembro de 1982, por uma cientista que você vai reencontrar no fim desta edição. Desde 1991 trabalha na Embrapa Soja, em Londrina, no Paraná. O ofício dela é um só, repetido por quatro décadas: garimpar, entre milhares de cepas, os microrganismos capazes de fixar nitrogênio do ar e de estimular raiz, e transformá-los em inoculante, aquele banho de bactéria que a semente toma antes do plantio.

Foto: Divulgação / World Food Prize Foundation
O resultado é a maior lavoura do mundo funcionando sem adubo nitrogenado. Segundo a World Food Prize Foundation, os inoculantes de rizóbio desenvolvidos por ela e sua equipe cobrem 85% da área de soja do Brasil, e o Azospirillum brasilense, uma bactéria que estimula raízes, já é usado em mais de 14 milhões de hectares de milho. A economia para o produtor é estimada em cerca de US$ 25 bilhões por ano em fertilizante que deixou de ser comprado, e cerca de 230 milhões de toneladas de CO2 equivalente evitadas, volume que a Embrapa atribui a 2024. São mais de 30 tecnologias e mais de 500 artigos, manuais e capítulos de livro.
Em maio de 2025, ela foi anunciada como laureada do World Food Prize, o prêmio de US$ 500 mil chamado de "Nobel da agricultura", e recebeu a honraria em 23 de outubro, em Iowa. Em abril de 2026, a revista Time a incluiu na lista das 100 pessoas mais influentes do ano. Ao ser anunciada laureada, ela resumiu a carreira numa frase divulgada pela fundação do prêmio, que traduzimos do inglês: "Substituir o químico pelo biológico na agricultura tem sido a luta da minha vida."
O detalhe que define a personagem é o que ela faz com o prêmio. Em julho de 2026, segundo a imprensa do setor, Hungria estava em Roma, no Comitê de Agricultura da FAO, como embaixadora do Renera, o projeto da CropLife Brasil com a ApexBrasil para exportar a experiência regulatória e a tecnologia brasileira de bioinsumos, que a CropLife já havia levado a reuniões na OCDE, em Paris, em março. A cientista de bancada virou a diplomata de uma indústria. A dimensão que só ela abre nesta edição é a escala: Pindorama atende 30 mil hectares, Gênica meio milhão, a bactéria que ela escolheu cobre a soja de um país inteiro. Quem quiser ver essa fronteira de perto tem data e endereço.
Escala se vê de perto. Três encontros, do pampa ao interior paulista.
POR ONDE ANDAR
Para quem quer ver a tendência com os pés na terra, três marcos no calendário.
49ª Expointer, de 29 de agosto a 6 de setembro de 2026, no Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio, no Rio Grande do Sul. É uma das maiores feiras agropecuárias da América Latina e o lugar onde o agro gaúcho, castigado pelo clima em seis das últimas sete safras de soja, segundo a Emater-RS, mostra o que está comprando para a próxima safra. Vale circular pelos estandes de insumo com a pergunta desta edição na cabeça.
Jornada de Desenvolvimento de Bioinsumos Agrícolas, 15 e 16 de setembro de 2026, no Parque Tecnológico de Piracicaba. Primeira edição, 16 horas, teórica e prática, do panorama de mercado ao registro de produto, com pesquisadores da Esalq e startups do ecossistema da escola. É o evento mais próximo do chão desta tendência.
III Simpósio de Bioinsumos, 14 e 15 de outubro de 2026, na Unesp de Jaboticabal, também no interior paulista, com inscrições abertas e primeiro lote até 14 de setembro. Estudantes, profissionais e produtores na mesma sala.
Esteio, Piracicaba, Jaboticabal: nenhuma capital. A tendência mora no interior. Mas nenhuma feira decide quem pode fabricar bactéria no Brasil. Quem decide é uma lei, e ela está pela metade.
UM TROÇO IMPORTANTE
A Lei nº 15.070, de 23 de dezembro de 2024,

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A Lei dos Bioinsumos, fez o que anos de decretos e instruções normativas não tinham feito: deu ao Brasil uma norma própria para produtos de origem vegetal, animal ou microbiana usados na lavoura, separada da lei dos agrotóxicos e da lei dos fertilizantes. Nasceu de um projeto do deputado Zé Vitor, de Minas, passou pelo Senado em dezembro de 2024 e foi sancionada sem vetos.
Leitura dupla, como manda a casa.
O que ela faz: define o que é bioinsumo, cria registro simplificado para produtos similares aos já registrados e, no artigo 10, autoriza o produtor a fabricar bioinsumo na própria fazenda, para uso próprio, sem registro, com cadastro simplificado, proibida a venda. A agricultura familiar fica dispensada até do cadastro. Cooperativas e condomínios podem produzir em conjunto. É a primeira vez que a produção dentro da fazenda, que já acontecia em tanques espalhados pelo país, sai da zona cinzenta e vira direito.
O que ela não resolve: as regras que definem se esse direito é seguro. A lei delegou à regulamentação, o decreto e as normas do Ministério da Agricultura, o cadastro, as boas práticas e a exigência ou não de um responsável técnico na fazenda, e deu 360 dias para o governo regulamentar. O prazo venceu em dezembro de 2025. Em janeiro de 2026, o Ministério da Agricultura abriu uma minuta de quase 200 artigos, que propõe responsável técnico obrigatório nas unidades cadastradas e doze meses para adequação às boas práticas de fabricação. Em agosto, o decreto seguia sem publicação, à espera de assinatura presidencial, segundo a indústria: um deputado cobrou cronograma da Casa Civil no dia 3, a CNI mandou carta ao presidente no dia 20.
E a briga não é de cartório. A Embrapa lembra por quê: numa nota técnica de 2021, todas as amostras de bioinsumo on-farm que analisou estavam contaminadas, 44% delas com gêneros que abrigam potenciais patógenos humanos. E a CropLife estima que 27% do mercado seja ilegal, somando produto sem registro, falsificação, contrabando e uso próprio fora das boas práticas.
A regra existe. A régua, não. O Brasil autorizou a fábrica viva em cada fazenda antes de decidir quem confere a qualidade do que sai dela.
Enquanto o decreto espera, o mercado não esperou. Os sinais estão espalhados da bolsa à cana, do Paraguai à pecuária.
JÁ TÁ ROLANDO

[ FÁBRICA VIVA ]
Os sinais de que o Brasil trocou importação por fermentação vão da B3 ao canavial, e o dinheiro apareceu mesmo num ano apertado. Cinco, com etiqueta.
[Mercado · Brasil · março/2026] O boletim CropData da CropLife Brasil fechou 2025 com R$ 6,2 bilhões em vendas de bioinsumos, contra R$ 5,4 bilhões em 2024, e 194 milhões de hectares tratados. Quem mais ganhou área foi o bionematicida, que combate nematoide, verme microscópico que ataca a raiz: 44 milhões de hectares, R$ 1,8 bilhão, 16 milhões de hectares a mais em um ano, alta de cerca de 60%. Em valor, porém, esse mesmo segmento recuou, o que é sinal de preço caindo, e quem cresceu foi o biofungicida, 41%. A soja responde por mais de 60% do valor, e o Mato Grosso sozinho por um quarto da área e do dinheiro.
[Indústria · Vinhedo (SP) · fevereiro/2026] A Biotrop, da qual a belga Biobest comprou 85% por R$ 2,8 bilhões em 2023, faturou R$ 900 milhões em 2025, alta de 23%, segundo a empresa, e mira R$ 1 bilhão em 2026. Opera nos Estados Unidos e em ao menos sete países europeus e atende Paraguai e Bolívia a partir do Brasil. A empresa fundada em 2018 no interior paulista exporta a receita para a Europa.
[Bolsa · B3 · agosto/2026] A Vittia, empresa de fertilizantes e biológicos listada na B3, reportou no segundo trimestre de 2026 que sua linha de soluções biológicas e naturais cresceu 34,5%, o principal motor de uma receita trimestral de R$ 114 milhões. A empresa ainda dá prejuízo, mas o investidor de varejo já pode comprar um pedaço da tendência.
[Cana · interior paulista · 2025-2026] Os biológicos na cana-de-açúcar movimentaram entre R$ 716 milhões e R$ 743 milhões em 2025, alta de 34% a 39%, em cerca de 13 milhões de hectares tratados, segundo duas leituras do painel FarmTrak, da Kynetec, divulgadas pela Canaoeste e pela Koppert. A Canaoeste, associação de canavieiros, mantém uma biofábrica própria, a CanaoesteBio, que já atendeu 100 mil hectares de associados, e a Tereos ampliou a área tratada com biológicos de 45% para 70% da safra 2025/26.
[Pecuária · Brasília · abril/2026] A Portaria SDA/MAPA 1.617, de 24 de abril de 2026, proibiu no Brasil o uso, como melhoradores de desempenho animal, de antimicrobianos importantes para a medicina humana e veterinária, como a bacitracina e a virginiamicina. Sai parte do antibiótico do cocho e abre-se espaço para o probiótico. A próxima fronteira do bioinsumo não é a planta. É o boi e o frango.
E um sexto sinal, de que o produto brasileiro virou exportável como método: em 2026, segundo a imprensa do setor, a CropLife Brasil e a ApexBrasil levaram o Renera, o hub brasileiro de inovação em bioinsumos, a reuniões na OCDE, em Paris, em março, e ao Comitê de Agricultura da FAO, em Roma, em julho, para harmonizar regras e abrir mercado. A Gênica vende no Paraguai desde 2022; a Agrivalle, desde 2024. Junte os seis sinais, da bolsa ao curral, do decreto ao Paraguai, e o desenho aparece. O Brasil começou a criar o insumo mais caro da sua lavoura em vez de comprá-lo pronto, e a fábrica que faz isso não tem chaminé: tem tanque, cepa e responsável técnico. Esse movimento ganha nome, e ele já passou por aqui lá em cima: FÁBRICA VIVA.
A FÁBRICA VIVA é a tendência #012 que o Path nomeia, mede e entrega antes de virar óbvio. Nossa plataforma de tendências brasileiras, está abrindo a lista de espera.
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SAI COM ESSA
No começo dos anos 1950, uma agrônoma de vinte e poucos anos, recém-formada em Munique, desembarcou no Brasil e foi trabalhar num laboratório de microbiologia de solos no quilômetro 47, em Seropédica, no Rio de Janeiro. Chamava-se Johanna Döbereiner. Tinha nascido em 1924 numa cidade que, quando ela nasceu, era Tchecoslováquia. Naturalizou-se brasileira em 1956 e nunca mais foi embora.

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O que Döbereiner fez ali não tem paralelo na agricultura tropical. Enquanto o mundo apostava na ureia, ela apostou na bactéria: descobriu, numa grama de pasto, um microrganismo que fixava nitrogênio do ar, e passou as décadas seguintes catalogando, segundo a Embrapa, nove espécies de bactérias que fazem o mesmo em gramíneas, cereais e tubérculos, entre elas o Azospirillum que você encontrou no milho lá em cima. Mais do que isso: selecionou os rizóbios que permitiram plantar soja no Brasil sem nitrogênio sintético, numa época em que a receita do mundo inteiro era o saco de adubo. A soja brasileira nasceu barata por causa de uma bactéria escolhida a dedo. A Embrapa registra que ela foi um dos poucos nomes brasileiros a entrar na lista de indicações ao Nobel de Química. Em 1979, ao jornal O Globo, segundo reproduz a Embrapa, deu a resposta que explica tudo: "[...] não troco o Brasil por nenhum outro. É o país que escolhi, estou muito bem aqui e não o deixaria nem para ter vantagens em outros lugares."
Em 1982, ela levou para o doutorado na Rural, e depois contratou, uma jovem agrônoma formada na Esalq, de quem foi coorientadora. A aluna conta que, quando a equipe temia que visitantes estrangeiros roubassem as ideias do laboratório, a chefe dizia: "Podem levar as ideias que quiserem, temos tantas, não vai fazer falta!" A aluna era Mariangela Hungria. Döbereiner morreu em outubro de 2000, em Seropédica, aos 75 anos. Vinte e cinco anos depois, sua orientanda recebeu o World Food Prize pelas bactérias que aprendeu a escolher com a mestra.
Essa é a tensão que atravessa toda esta edição. O Brasil que importa 85% do adubo é o mesmo Brasil que, há setenta anos, uma tcheca naturalizada convenceu a confiar em bactéria. O país demorou a acreditar. Quando acreditou, ganhou a soja. Agora está decidindo, num decreto atrasado, se confia o mesmo segredo a cada fazenda.
O nitrogênio sempre esteve no ar, de graça, em cima de todas as lavouras do país. O que faltava era alguém teimosa o bastante para ensinar a planta a pegar.
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