MAIORIA S.A.: a diversidade que virou mercado no Brasil
Diversidade como Vantagem Competitiva (não é ESG, é mercado)

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Em 1993, uma mulher de cabelo crespo entrava numa farmácia qualquer do Rio e saía de mãos vazias. A prateleira tinha xampu para cabelo liso, oleoso, "normal". O dela não estava ali. Não porque não existisse cliente: existia aos milhões. Faltava quem enxergasse o tamanho do mercado parado naquele corredor.
No mesmo país, alguém com um plano pronto na mochila ouvia que o crédito tinha sido negado de novo, e seguia em frente assim mesmo, montando o negócio com o capital que tinha: o próprio.
Na televisão, a propaganda mostrava um Brasil. Na rua andava outro, com mais de um trilhão e meio de reais no bolso e quase nenhuma presença na tela.
E no andar dos conselhos, a sala não parecia o país: menos de quatro em cada cem cadeiras de administração eram de pessoas negras, num lugar onde elas são mais da metade da população.
Quatro cenas, uma conta só. O Brasil que se anuncia plural ainda se administra como se fosse de um grupo só. Chama de minoria quem é maioria. E trata como cota de imagem, jogada no último slide do relatório de ESG, aquilo que sempre foi a maior conta de mercado mal lida do país.
A tese desta edição cabe num batismo, que a gente revela lá embaixo. Por ora, fica a virada: diversidade no Brasil deixou de ser pauta moral e virou tamanho de mercado. A maioria nunca esteve esperando ser descoberta. Já estava criando, vendendo e inventando. Quem ler isso primeiro, fatura primeiro.
A gente foi atrás de quem já leu.
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ONDE A COISA ACONTECE
Grande Tijuca, Rio de Janeiro

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Começa num endereço improvável: o bairro do Muda, na Grande Tijuca, Rio de Janeiro, 1993. Foi ali que Heloísa Assis, a Zica, abriu o primeiro salão do que viraria a Beleza Natural. Ela tinha sido empregada doméstica, fez curso de cabeleireira e passou anos acertando uma fórmula que tratava o cabelo crespo e cacheado valorizando a textura, em vez de domá-la.
O detalhe que importa não é a fórmula. É a leitura de mercado. Quando a Zica abriu a porta, a indústria tratava o cabelo da maioria das brasileiras como exceção. Hoje a Beleza Natural cresceu, em média, perto de 30% ao ano, atende milhões de clientes e mantém indústria própria, a Cor Brasil, que produz mais de 250 toneladas de creme, xampu e condicionador por mês.
A tese não óbvia é esta: a Zica não vendeu beleza. Vendeu um mercado que a indústria fingia não enxergar. O cabelo crespo e cacheado nunca foi nicho. Era o fio da maioria, esperando alguém olhar para a prateleira e ver clientela onde os outros viam ausência.
E essa leitura, que parece intuição de empreendedora, tem nome técnico. Quem deu o nome foi um economista.
ESCUTA FINA
A voz desta edição é a de Mário Theodoro, economista formado na UnB, doutor pela Sorbonne, ex-diretor do Ipea e ex-secretário-executivo da Seppir. No livro A Sociedade Desigual: Racismo e Branquitude na Formação do Brasil (Zahar, 2022), ele defende uma tese precisa: o racismo não é efeito colateral da desigualdade brasileira. É o motor dela, o elemento que organiza quem entra e quem fica de fora.
Em entrevista de novembro de 2020 ao Observatório de Análise Política em Saúde, Theodoro resumiu o mecanismo:
Quando a gente naturalizou a desigualdade, quando a desigualdade deixa de ser um problema, é porque nós temos alguma coisa por trás disso. Nesse caso é o racismo.
Por que ele, agora. Theodoro morreu em 26 de fevereiro de 2026. Poucos meses depois, em maio, o Supremo validou por unanimidade a Lei de Igualdade Salarial, e os primeiros relatórios de transparência começaram a transformar em número o que antes era discurso. O país perdeu o economista que melhor traduziu o racismo em linguagem de mercado bem na hora em que os dados, enfim, começaram a falar a língua dele. Ler diversidade como economia é continuar a conta que ele abriu.
Theodoro mostrou o motor. Dois desvios mostram onde a maioria já o ligou por conta própria.
BONS DESVIOS
Da estante ao banco.

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Desvio um: a literatura negra deixou de pedir licença e virou mercado. Por décadas, o autor negro esbarrava num bloqueio editorial silencioso. A resposta não foi esperar a porta abrir: foi construir outra. Em 2015, no Rio, Vagner Amaro fundou a Editora Malê, dedicada a escritoras e escritores negros do Brasil e da diáspora. Dez anos depois, já passou de 200 títulos e mais de 150 autores. Não está sozinha: Jeferson Tenório ganhou o Prêmio Jabuti de 2021, na categoria Romance Literário, com O Avesso da Pele, e Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves (vencedor do Casa de las Américas), virou supersérie da Globo. E a conta fecha do lado de quem compra: mulheres negras já são metade das mulheres que compram livros no Brasil e cerca de 30% de todos os compradores; pretos e pardos somam 49% do mercado leitor (CBL/Nielsen, 2025). A linha que o leitor não espera: o "nicho" da literatura negra é, na prática, o coração do mercado leitor brasileiro.
Desvio dois: o sistema financeiro precifica melanina como risco, e alguém montou o banco que faltava. Pessoas negras são 53% dos donos de micro e pequenos negócios do país, mas têm crédito negado cerca de três vezes mais que clientes brancos na rede tradicional. Foi nesse vão que Nina Silva ergueu, em 2017, o Movimento Black Money e, depois, o D'Black Bank, a partir da ideia de "black money": fazer o capital circular dentro da própria comunidade em vez de vazar antes de criar riqueza. Não é só banco: o movimento atua em três frentes, educação, comunicação e serviços financeiros, e trata letramento de identidade e mentalidade de inovação como diferencial competitivo, não como pauta social. O argumento dela é de mercado, não de mágoa: "não basta incluir trainees negros na empresa, é preciso enegrecer a lista de fornecedores." Não à toa a Nina já palestrou no Path, quando o assunto ainda não era manchete: pioneirismo, aqui, é método. A linha que o leitor não espera: o dinheiro sempre existiu; faltava parar de deixá-lo escorrer.
Se a Nina destrava o capital, a próxima destravou a praça inteira.
QUEM MOVE
ADRIANA BARBOSA

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Ela não construiu uma empresa. Construiu um mercado.
Em 2002, ela montou uma feira de rua em São Paulo para vender o trabalho de artistas e empreendedores negros que não cabiam em lugar nenhum. Chamou de Feira Preta. Vinte e poucos anos depois, virou o maior festival de cultura e empreendedorismo negro da América Latina: ao longo de mais de duas décadas, passaram por ele cerca de 240 mil participantes presenciais, quase 2 mil expositores e mais de 1.300 artistas, movimentando mais de 12 milhões de reais entre afroempreendedores (só a edição de 2024 reuniu 60 mil pessoas e movimentou R$ 7,7 milhões). Em torno do festival nasceu a PretaHub, plataforma de fomento a negócios da economia criativa negra. A revista Time colocou Adriana numa lista de pessoas influentes pelo motivo certo: ela está, literalmente, construindo mercado para quem o mercado não via.
O Path conhece essa potência de perto: o festival Path já abrigou uma Feira Preta especial dentro da própria programação. Estar à frente do tema não é manchete nova por aqui; é método.
A dimensão que só ela abre nesta edição é a da praça. A Zica fez um mercado caber numa fórmula. Os autores fizeram um mercado caber num catálogo. A Adriana fez um mercado caber num lugar, e depois numa plataforma. Ela não vende espaço de feira. Vende a prova de que, quando existe vitrine, a maioria lota.
Um mercado desse tamanho, mais cedo ou mais tarde, ganha calendário e lei.
POR ONDE ANDAR
Para ver a tendência de perto, um marco e uma estação.
O marco é o Afro Fashion Day: criado em 2015 pelo Jornal Correio e realizado todo mês de novembro no Pelourinho, em Salvador, dentro do Novembro Negro (a 11ª edição lotou o Terreiro de Jesus em 2025). É tratado como a maior passarela de moda negra do país e, edição após edição, virou vitrine de estilistas, marcas e indústria de beleza voltadas à maioria.
A estação é o Novembro Negro: desde 2024, o 20 de novembro é feriado nacional por lei (Lei 14.759/2023), e a data espalhou pelo país uma agenda de feiras, desfiles e encontros de negócios da economia negra. O reconhecimento simbólico chegou. Falta o contábil. E é aí que entra a lei que mexe com o bolso.
UM TROÇO IMPORTANTE
A Lei 14.611, de 2023, a Lei de Igualdade Salarial.

A lei obriga empresas com mais de 100 funcionários a divulgar, a cada semestre, relatórios de transparência com salários e critérios de remuneração, sob pena de multa. Em maio de 2026, o Supremo Tribunal Federal declarou a lei constitucional, por unanimidade.
Leitura dupla, como manda a casa.
O que ela faz: tira a desigualdade salarial do campo da suspeita e a coloca numa planilha pública. Antes, a diferença era algo que cada um sentia no contracheque. Agora é um dado que a empresa precisa declarar. E informação pública é o primeiro insumo de mercado: investidor, talento e cliente passam a poder escolher com base nela.
O que ela não resolve: a lei mira gênero, não raça. Compara homens e mulheres, mas não enxerga a interseção onde a conta é mais dura, a da mulher negra, que empreende mais que qualquer grupo e ainda ganha cerca de 54% do que ganha a empreendedora branca. E transparência não é correção: declarar a diferença não é o mesmo que pagá-la. O número apareceu. O cheque, ainda não.
Enquanto a lei mira um eixo, o mercado já se move em vários ao mesmo tempo.
JÁ TÁ ROLANDO
Os sinais de que a maioria virou mercado estão espalhados por setores que raramente conversam. Cinco deles, com etiqueta.

[ MAIORIA S.A. ]
[Governança · 2025] Pessoas negras ocupam menos de 4% das cadeiras de administração das empresas de capital aberto; brancos, 82,6% (IBGC). As exceções provam o tamanho do espaço vago: Rachel Maia, primeira mulher negra a presidir grandes empresas no país (Pandora, Tiffany, Lacoste), hoje é conselheira de administração de grandes companhias, como a Vale. Uma cadeira ocupada, milhares à espera.
[Conselhos · 2025] A presença feminina em conselhos e diretorias subiu de 12,8% em 2021 para 16,1% em 2025; só nos conselhos de administração, a média chega a 21,1% (IBGC). Devagar, mas a curva aponta para cima.
[Consumo · 2024] O mercado LGBTQIAPN+ movimentou cerca de 18,7 bilhões de reais em um ano, alta de 39%, e as "famílias arco-íris" gastam, em média, 14% mais que as demais (Nielsen, Out Now). Pink money deixou de ser piada de marketing.
[Beleza · 2025] O mercado brasileiro de cuidados capilares foi avaliado em cerca de 6,7 bilhões de dólares, puxado justamente pela demanda por cabelos crespos e cacheados (Mordor Intelligence). A prateleira vazia de 1993 virou um dos maiores polos de hair care do mundo.
[Trabalho · 2024] A Lei de Cotas para pessoas com deficiência existe há mais de três décadas, mas só 53% das vagas reservadas estão de fato ocupadas, num país com mais de 7 milhões de PcD em idade de trabalhar (Ministério do Trabalho). A vaga existe. Falta a empresa ir buscar o talento.
Junte os cinco sinais, do conselho ao salão, do bar à livraria, e o desenho aparece. A maioria virou mercado. E esse mercado tem razão social: MAIORIA S.A.
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SAI COM ESSA
Em 1960, um repórter entrou na favela do Canindé, em São Paulo, atrás de pauta, e saiu com cadernos. Eram os diários de Carolina Maria de Jesus, catadora de papel, mãe de três, que escrevia à noite no que sobrava de luz. Viraram o livro Quarto de Despejo. Esgotou a primeira edição em poucos dias e foi traduzido para mais de uma dúzia de países, fazendo dela uma das maiores autoras brasileiras do século.
Carolina não pediu permissão para ter voz. Ela tomou a palavra com a autoridade de quem via o país de baixo e entendia melhor que muita gente de cima: "O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora."
Décadas depois, a frase virou tese de mercado. O valor sempre esteve onde o país menos olhava: na maioria que cria, empreende, lê, compra e decide. Carolina, do caderno achado no lixo, escreveu um best-seller mundial e provou primeiro o que as planilhas só agora confirmam. Não era depósito. Era estoque. E quem chegar primeiro vai descobrir que a maioria nunca esteve esperando. Estava trabalhando.
Path é uma plataforma brasileira sobre inovação como forma de pensar e agir.
Festival · Consultoria · Radar de Tendências · Estúdio · Produtora
Treze anos contando o Brasil que se inventa.
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