COMPASSO #2

Um radar sobre o Brasil que cria e inova.

FORMAR O CAMPEÃO É METADE DO TRABALHO

imagem gerada com IA

No dia 27 de julho de 2021, em Tsurigasaki, no Japão, um surfista brasileiro entrou no mar para disputar a primeira medalha de ouro olímpica do surfe masculino. A final mal tinha começado quando a prancha dele partiu ao meio.

O nome dele é Italo Ferreira. Enquanto o técnico corria pela areia com uma prancha reserva, o adversário japonês seguia sozinho na água. Italo voltou com outro equipamento. E ganhou.

A prancha quebrou e o ouro veio assim mesmo. O talento brasileiro raramente é o que está em dúvida. A pergunta desta edição é outra: o que se constrói em volta dele.

Italo aprendeu a surfar em Baía Formosa, no Rio Grande do Norte, sobre a tampa de isopor das caixas em que o pai guardava peixe para vender. E não foi um caso isolado. Desde 2014, o título mundial masculino de surfe foi para o Brasil oito vezes, com Gabriel Medina, Adriano de Souza, Italo Ferreira, Filipe Toledo e Yago Dora, campeão em 2025. O mundo do surfe chamou essa geração de Brazilian Storm, a tempestade brasileira.

Mas a potência esportiva ainda não virou potência econômica. As marcas que definem o surfe como negócio, reunidas na Boardriders, foram vendidas em 2023 ao grupo americano Authentic Brands Group por cerca de 1,3 bilhão de dólares. A Liga Mundial de Surfe, a WSL, pertence a um bilionário americano. O Brasil entra com o corpo, o risco e o talento. O valor, muitas vezes, é faturado fora.

Existe um caminho conhecido para mudar isso. Em 2017, a Fórmula 1 era um esporte em queda. A Liberty Media comprou a categoria e fez uma aposta simples de dizer e difícil de executar: tratar a Fórmula 1 como produto de entretenimento, não como competição fechada. Abriu as redes sociais, antes proibidas para os fãs, e passou de 18 para 97 milhões de seguidores. Lançou um serviço de streaming próprio. Levou os bastidores para a Netflix, na série Drive to Survive. Criou corridas em Miami e Las Vegas. O centro do playbook foi a ordem das coisas: primeiro crescer a audiência, depois renegociar os direitos de transmissão. A receita saiu de 1,8 bilhão de dólares em 2017 para 3,4 bilhões em 2024. O próprio surfe seguiu o caminho: a WSL opera hoje como liga digital, montada em torno do próprio aplicativo.

E o Brasil, o que tem para entrar nessa conversa? Tem um playbook próprio, validado e antigo. Em 1980, a Globo criou uma divisão internacional para dublar e distribuir novelas. O país não exportou novela por acaso: transformou a conversa de família, a ambição e a vingança em produto de catálogo. Hoje a novela brasileira chega a mais de 170 países, e Avenida Brasil, a mais exportada de todas, foi vendida para mais de 140, em 19 idiomas. O playbook funciona porque o Brasil fez três coisas com método: transformou a história em produto, traduziu o produto e construiu o canal para vendê-lo. Não foi só talento narrativo. Foi sistema.

Esse mesmo conhecimento ainda não foi apontado para o talento esportivo com a mesma ambição. Pode ser. O jornalismo de surfe brasileiro tem raiz, com veículos como o portal Waves, referência desde 1998 e pioneiro na previsão de ondas. Essa camada precisa de reinvenção, e ela já começou: a Waves passou recentemente por um sprint para repensar o seu modelo, um processo que o Path ajudou a organizar e conduzir.

A primeira edição do Compasso falou do lastro de quem faz e de quem mede. Esta fala de um terceiro: o lastro de quem conta a história. Formar o campeão é metade do trabalho. A outra metade é contar essa história com método, distribuí-la com inteligência e ficar com o valor que ela gera.

O Brasil já fez isso com a novela. Pode fazer com o esporte, com o turismo sustentável, com a ciência, com tudo o que inventa antes mesmo de saber nomear. Já provou que sabe formar o melhor do mundo. Falta provar que sabe ficar com o valor do que o melhor do mundo constrói.

ONDE A COISA ACONTECE

Fim de junho. Uma ilha no meio do rio Amazonas. Parintins, cidade de pouco mais de cem mil habitantes, recebe 126 mil visitantes em três noites.

É o Festival de Parintins, onde os bois Garantido e Caprichoso disputam, no estádio chamado Bumbódromo, um espetáculo de alegorias gigantes, música ao vivo e narrativa visual. A edição de 2026 vai de 26 a 28 de junho.

Chamar isso de folclore é ver metade. Parintins é ópera amazônica, engenharia popular, indústria criativa e disputa simbólica. As alegorias passam de vinte metros e hoje usam robótica para se mover, com painéis de LED e efeitos que rivalizam com grandes produções de palco.

Também há inovação na proteção do artesanato. Como boa parte do que se vende no festival é falsificada, a organização criou um sistema digital para autenticar o produto oficial e defender a renda de quem o faz.

Um polo criativo de classe mundial, com projeção de 193 milhões de reais em impacto, no interior da Amazônia. O Brasil profundo, quando é levado a sério, não é periferia. É centro.

imagem gerada com IA

ESCUTA FINA

Gilberto Gil, músico e ministro da Cultura do Brasil entre 2003 e 2008, em discurso sobre a economia da cultura:

Me parece óbvio que podemos e devemos atuar primordialmente como produtores e exportadores de conteúdos culturais, e não apenas como consumidores.

Vinte anos depois, a frase ainda descreve uma fronteira aberta.

BONS DESVIOS

Quatro leituras brasileiras. Cada uma carrega uma ideia de construção cultural:

Ruy Castro

Chega de Saudade: A reconstituição de como um pequeno grupo de músicos transformou o jazz americano em bossa nova. Funciona como manual: mostra como o Brasil decodifica uma referência estrangeira e devolve algo novo, próprio e exportável.

Itamar Vieira Junior

Torto Arado: Romance ambientado no interior da Bahia, traduzido em mais de vinte países e finalista do International Booker Prize. A lição é de alcance: a história mais local, quando bem contada, pode ser a que viaja mais longe.

Darcy Ribeiro

O Povo Brasileiro: A tese de que o brasileiro é um povo novo, feito de mistura. Ler isso é entender a matéria-prima de qualquer marca, produto ou campanha que queira falar com o país.

Sérgio Buarque de Holanda

Raízes do Brasil: O ensaio do homem cordial. Explica, com noventa anos de antecedência, a tensão desta edição: por que o Brasil improvisa genialmente e tem dificuldade de construir instituições que sustentem valor no tempo.

QUEM MOVE

JAQUELINE GOES DE JESUS
A CIENTISTA QUE LEU UM VÍRUS EM 48 HORAS

ilustração gerada com IA

Ela decodificou um vírus antes de o país entender o tamanho da ameaça.

Em fevereiro de 2020, poucos dias depois do primeiro caso de Covid-19 no Brasil, a cientista baiana estava entre os pesquisadores que sequenciaram o genoma do novo coronavírus em circulação no país. Levou 48 horas. A média mundial era de cerca de quinze dias.

Não parou por aí. É professora na USP e integra um centro de pesquisa Brasil e Reino Unido voltado à vigilância genômica de arbovírus, doenças transmitidas por mosquitos, como a dengue. Em 2023, recebeu o prêmio Para Mulheres na Ciência, da L'Oréal, da UNESCO e da Academia Brasileira de Ciências, por um trabalho sobre a circulação de doenças entre Brasil e Angola.

A mesma técnica que leu a Covid agora ajuda a montar sistemas de alerta para a próxima epidemia.

POR ONDE ANDAR

  1. Seminário Transmutar, no Inhotim. Em 6 e 7 de junho de 2026, em Brumadinho, Minas Gerais. O instituto de arte contemporânea reúne artistas, cientistas e pesquisadores de vários países para dois dias sobre biodiversidade, cuidado e cooperação, inspirados no pensamento do líder quilombola Nêgo Bispo. Entrada gratuita.

  2. Web Summit Rio. De 8 a 11 de junho de 2026, no Riocentro. A edição carioca de uma das maiores conferências de tecnologia do mundo, com inteligência artificial, fintech e startups no centro.

  3. Cannes Lions. De 22 a 26 de junho de 2026, em Cannes, na França. A maior premiação mundial de criatividade publicitária, onde a delegação brasileira costuma figurar no topo. Bom termômetro de quais empresas e ideias brasileiras estão sendo notadas lá fora.

UM TROÇO IMPORTANTE

Uma pessoa paga um boleto no caixa de uma casa lotérica. Atrás dela, alguém faz um saque. Do lado, outro deposita dinheiro. Cena de bairro, de fila, de calor, de senha no painel.

imagem gerada com IA

Por trás dessa cena banal existe uma das soluções brasileiras mais copiadas de inclusão financeira.

O Brasil tem mais de 400 mil pontos de correspondente bancário: lotéricas, farmácias, mercados e Correios autorizados a fazer operações de banco. O detalhe importa. Isso não foi uma inovação de tecnologia. Foi de regulação.

O Banco Central permitiu que qualquer comércio com uma maquininha e um contrato virasse extensão de uma agência. Assim, o serviço financeiro chega a milhares de municípios sem uma única agência bancária.

Enquanto países ricos ainda discutem o fechamento de agências, o Brasil resolveu alcance com uma regra simples e uma compreensão real do território. O Banco Central já levou o modelo a fóruns do G20.

Não nasceu de um laboratório. Nasceu da vida como ela funciona aqui. E o mundo copiou.

JÁ TÁ ROLANDO

Toda semana, uma tendência real que já começou a se mexer. Garimpada nos sinais, lida com olhar brasileiro do Path.

O COMPRADOR INVISÍVEL

imagem gerada com IA

Em 11 de março, o Banco do Brasil e a Visa fizeram no Brasil a primeira transação financeira conduzida por um agente de inteligência artificial. Quem buscou a oferta, escolheu e pagou não foi uma pessoa. Foi o agente, autorizado a usar o cartão do cliente. Aconteceu em ambiente de produção controlado, um teste. Mas foi uma compra real, fechada por uma máquina.

Esse é o começo da compra delegada: quando a decisão de compra deixa de passar, em tempo real, pelo olho, pelo dedo e pelo impulso humano, e passa a ser entregue a uma máquina autorizada a escolher.

Não é caso isolado. Nos últimos meses, ChatGPT, Google e Amazon lançaram recursos de compra por agente. Visa e Mastercard começaram a montar os trilhos de pagamento para esse novo tipo de comprador. A vitrine continua existindo, mas parte da decisão muda de lugar. Sai da atenção humana. Entra no critério da máquina.

Para as marcas, a mudança é grande. Por décadas, o marketing otimizou para gente: filme bonito, embalagem sedutora, anúncio no momento certo, oferta piscando na tela. Um agente de IA não se encanta com trilha sonora. Não passeia no corredor. Não sente a textura da caixa. Ele lê preço, ficha técnica, prazo, avaliação, reputação, política de troca e consistência dos dados.

A nova disputa não será só por atenção. Será por legibilidade. A marca vai precisar ser desejável para pessoas e compreensível para sistemas. Bonita para o olho. Confiável para a máquina.

A lente brasileira torna isso ainda mais interessante. O Brasil não assiste a essa virada de fora. O Pix tornou o pagamento instantâneo e integrável uma coisa cotidiana, quase invisível. E, em pesquisa da Visa, 7 em cada 10 brasileiros já disseram usar IA para apoiar decisões de compra, contra 4 em cada 10 nos Estados Unidos.

O país que decodificou o pagamento pode ser um dos primeiros a transformar a compra por agente em rotina. A próxima vitrine talvez não seja uma tela. Talvez seja uma pergunta bem feita, respondida por uma máquina que já sabe o que comprar.


SAI COM ESSA

Jorge Paulo Lemann, investidor, em frase que dá título ao livro Sonho Grande, de Cristiane Correa:

“Sonhar grande e sonhar pequeno dá o mesmo trabalho.”

Path é uma plataforma brasileira sobre inovação como forma de pensar e agir.
Festival · Consultoria · Radar de Tendências · Estúdio · Produtora
Treze anos contando o Brasil que se inventa.
www.somospath.com



Mais inovação e Criatividade brasileira: