COMPASSO #6

Um radar sobre o Brasil que cria e inova.

UM PEDAÇO DO CEARÁ ONDE O VENTO NÃO TIRA FÉRIAS

imagem gerada com IA

De julho a janeiro ele bate forte; na baixa, não some. Vem do leste, na mesma direção, com uma teimosia rara no mundo. Os alísios, que um dia empurraram caravelas, hoje empurram quatro economias no mesmo litoral.

Primeiro veio o turismo. Depois, a energia elétrica. Agora, o hidrogênio verde quer transformar vento de graça em combustível de exportação. E o mundo digital descobriu que onde sobra energia limpa e chegam cabos de internet cabe a fábrica invisível do século: o data center.

Numa pequena praia do Ceará, uma menina aprendeu kite aos oito anos e virou campeã mundial. No município vizinho, o mesmo vento gira turbinas e pode abastecer um polo de hidrogênio e servidores onde o mundo guarda a própria memória.

Os números explicam. O fator de capacidade das turbinas do Nordeste passa de 40%, acima da média global, na casa dos 30%. Segundo a ABEEólica, a região concentra perto de 90% da capacidade eólica instalada do país, e o Ceará está entre os três maiores geradores.

Quando a natureza brasileira sai do cenário e entra no balanço, aparece uma riqueza que não se importa nem se inventa. Está soprando ali. A pergunta é se o Brasil vai saber transportar essa riqueza, não só gerá-la.

Da nossa cozinha: o Path frequenta esse litoral há três anos. Participamos da concepção e da reestruturação do conceito do Paradiso Wellness Living, em Icaraí de Amontada. A gente não decifra o Brasil de longe. Vai com o pé na areia.

ONDE A COISA ACONTECE

A economia que o Brasil descobriu na pandemia.

imagem feita por @fabioseixas

O kitesurfe era pequeno no Brasil até a pandemia empurrar gente para o litoral e a vela de tração deslanchar. Hoje o Nordeste é um dos melhores lugares do mundo para velejar pela mesma razão que atrai turbinas: vento forte, constante e quase sempre na mesma direção.

Os points estão no Ceará: Cumbuco, Preá, Tatajuba, Icaraizinho, Ilha do Guajiru. Jericoacoara virou destino de massa e carrega a memória do windsurf. O kite corre nas praias ao lado, levando dinheiro graúdo junto.

O esporte produziu campeões. Mikaili Sol, cearense, está entre as maiores kitesurfistas do mundo, com vários títulos mundiais. O litoral recebe todo ano o Rally Sertões de Kitesurf, badalado como um dos maiores rallies de kite do planeta: quase quatrocentos quilômetros a favor do vento, com atletas de meia dúzia de países.

Atrás do esporte veio o turismo qualificado, brasileiro e europeu. Atrás dele, o tijolo. Segundo o governo do estado, o turismo esportivo do Ceará movimentou cerca de R$ 1,38 bilhão em 2025, alta de 21%. Em Preá, o Grupo Carnaúba ergue a Vila Carnaúba e o clube Wind House, com hotel Anantara dentro do empreendimento, bancado por um fundo imobiliário que bateu recorde de captação na XP. Em Icaraizinho, a Carmel inaugura resort de luxo e nasce o condomínio focado em bem estar Paradiso Wellness Living. Mais a oeste, perto de Camocim, avança a Fazenda Moréias. O Club Med escolheu o litoral cearense para o primeiro resort da sua rede no mundo voltado ao kite.

Com o aeroporto de Jericoacoara caminhando para virar internacional e a TAP estudando voos diretos de Lisboa e do Porto, brinca-se por lá que essa região pode virar o melhor pedaço da Europa, só que com sol, água quente e hospitalidade brasileira o ano inteiro. O litoral oeste vira uma mistura de Havaí com Costa Rica brasileira, trocando o surfe pela vela e a yoga pelo bem estar integral, tudo isso para um público que já pensa em longevidade. O mesmo vento que enche a vela enche a diária de mil reais.

ESCUTA FINA

"Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba."

José de Alencar, abertura de Iracema, 1865, "Lenda do Ceará".
Pouca gente lembra que Iracema costuma ser lida como anagrama de América. Alencar, cearense, escreveu o mar e o vento da terra como quem funda um país. Cento e sessenta anos depois, o mesmo verde mar bravio e a mesma carnaúba dão nome ao grupo que ergue hotel de luxo em Preá. A paisagem que virou literatura virou ativo.

BONS DESVIOS

Um filme e um livro para entrar nessa economia do vento por dentro.

Além do Vento (filme)

Dirigido pelo nosso fundador @FabioSeixas. Um filme sobre os bastidores de uma das maiores competições de kite do mundo no litoral cearense. Diverte e explica o lifestyle e a economia do esporte por dentro, com o Yaron, cria de Jeri e bicampeão da competição acompanhado por executivos como Bruno Nardon (G4 Educação) e Aysu Bilgin (turca, ex-executiva global da BRF), que trocaram sala de reunião por vela no Ceará.

Disponível no YouTube: https://youtu.be/LKFCmUt5xQo

Euclides da Cunha

Os Sertões (1902). O clássico que ensinou o Brasil a olhar para o próprio interior. Antes de virar reserva de vento, sol e dados, o sertão foi terra, homem e luta. Nunca foi vazio. Foi mal lido.

Onde o país via atraso e seca, Euclides já via força. "O sertanejo é, antes de tudo, um forte", escreveu. Cem anos depois, o chão que parecia castigo virou um dos ativos mais cobiçados do Brasil.

QUEM MOVE

MÁRIO ARARIPE

ilustração gerada com IA

Antes de ser o senhor dos ventos, Mário Araripe vendeu jipe. Cearense de Crato, no Cariri, engenheiro formado no ITA, comprou em 1997 a Troller, montadora à beira da falência, por cerca de seiscentos mil reais. Em 2006, vendeu a Troller para a Ford por algo perto de meio bilhão.

Com esse dinheiro, apostou onde quase ninguém olhava: fundou a Casa dos Ventos e foi cravar torre eólica no sertão. Deu certo. Hoje a Casa dos Ventos é uma das maiores empresas de energia eólica do Brasil, dona de perto de um terço dos parques do país, e a francesa TotalEnergies entrou como sócia numa associação bilionária. Em 2025, Araripe estreou na lista de bilionários da Forbes.

A sacada Path: um dos homens mais ricos do país não enriqueceu de petróleo nem de minério. Enriqueceu de uma coisa que sempre soprou de graça. E ele não é exceção. Pode parecer que o umbigo do Brasil está em São Paulo, mas o nariz talvez esteja aqui, respirando ar puro e fabricando marca: o café 3 Corações, a farmácia Pague Menos e o cream cracker da M. Dias Branco são todos cearenses, e isso é antes do vento. Tem muito mais do que vento para descobrir nesse pedaço de Brasil.

POR ONDE ANDAR

Dois encontros do mesmo vento: um com o pé na areia, outro no palco da indústria.

  1. O Maravilhoso Mundo do Foil (MMF). De 29 de junho a 3 de julho, no Preá, a segunda edição do evento dedicado ao foil, o hidrofoil que faz a prancha voar sobre a água. É operado pela pousada Rancho do Peixe, que se instalou ali cerca de duas décadas atrás, e ajudou a pôr o Preá no mapa mundial do vento antes de quase todo mundo.

  2. Brazil Windpower 2026 (São Paulo, 27 a 29 de outubro). O maior evento de energia eólica da América Latina, com eixos sobre nova industrialização verde, hidrogênio e o caminho para a COP30.

UM TROÇO IMPORTANTE

O vento quer virar bit (e ainda falta o fio)

imagem gerada com IA

Aqui está a virada. O Ceará gera muito mais energia limpa do que consome, uma sobra na casa dos gigawatts, e Fortaleza é o principal ponto de chegada dos cabos submarinos de internet da América Latina: dezesseis cabos ligando o Brasil aos Estados Unidos, à Europa e à África.

Energia barata e renovável de um lado. Conexão de baixa latência do outro. É a receita que as gigantes de tecnologia procuram para instalar data centers, a fábrica invisível da inteligência artificial. Google, Meta e outras já estudam o Pecém. A Medida Provisória 1.307, de 2025, amarra esses data centers ao uso de energia de novas usinas renováveis. Fala-se em dezenas de bilhões de reais.

No mesmo complexo segue o hidrogênio verde, com dezenas de bilhões de reais em projetos previstos e a australiana Fortescue comprometida com uma planta bilionária, amparada pelo marco legal de 2024.

Mas o folheto bonito esconde o gargalo. Não é o vento. É o fio. A planta de hidrogênio da Fortescue teve o acesso à rede elétrica negado pelo operador do sistema porque a transmissão ainda não existe na escala necessária, e a expansão pode demorar anos.

Ter o melhor vento do mundo não basta se a energia não chega onde precisa. A próxima fortuna do Brasil verde vai para quem resolver o transporte: do elétron à molécula ao byte.

JÁ TÁ ROLANDO

As tendências brasileiras mapeadas e nomeadas pelo Path.

imagem gerada com IA

[ PÁTRIA DO VENTO ]

A tese, em uma linha: vento e sol estão deixando de ser paisagem para virar a próxima grande reserva exportável do Brasil. A natureza brasileira está entrando no balanço. O país tem a chance de ser potência de energia limpa do jeito que nunca foi de petróleo. O Brasil está virando a pátria do vento.

Por que agora (os sinais têm data):

  • Em 2024, o Brasil ganhou o marco legal do hidrogênio.

  • Em janeiro de 2025, o da energia eólica offshore. A matriz elétrica segue perto de 88% renovável.

  • Em 2025, a energia verde rendeu ao Brasil um novo nome na lista de bilionários da Forbes, e o Pecém firmou acordos para mandar hidrogênio à Europa.

O olhar Path: O vento saiu da poesia e entrou na planilha.

Depois da nossa primeira tendência identificada, Economia da Confiança, esta é a segunda tendência batizada pelo Path. E o que você leu aqui é só a casca. A pilha completa de sinais datados, números e leituras acionáveis, tanto das tendências quanto das imersões de campo, como a que fizemos sobre o Cariri, vão morar na plataforma de tendências do Path, que está chegando.

Quer ser dos primeiros a entrar quando ela abrir? responda este email. A gente lê todos, um por um.


SAI COM ESSA

"Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro.”

Belchior é cearense e em "Sujeito de Sorte", cantou a teimosia de quem renasce. É a mesma do sertão que virou litoral de campeões e terreno fértil de bilhões. O vento sempre esteve aqui. Faltava o Brasil olhar.

Path é uma plataforma brasileira sobre inovação como forma de pensar e agir.
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