Um radar sobre o Brasil que cria e inova.

A REGRA DOS TRÊS LASTROS

Por que Pix virou padrão global e Anitta não; por que a soja brasileira pesa no mundo e mesmo assim é cotada em Chicago; e o que esses três casos têm em comum.

imagem gerada com IA

Uma sala em Planaltina

Há uma sala discreta em Planaltina, no Distrito Federal, onde uma decisão tomada cinquenta anos atrás continua produzindo efeito.

Quando a Embrapa Cerrados foi criada, em 1º de julho de 1975, o solo do Cerrado era considerado pobre, ácido e bom para nada. Pesquisadores chegavam ao Planalto Central com a tarefa de fazer ciência em território que a literatura agronômica do período tratava como pobre, ácido e de baixa vocação para grãos comerciais em escala. O consenso técnico era de que culturas de clima temperado, como a soja, não se adaptavam a baixas latitudes tropicais.

Funcionou. Na safra 2024/25, o Brasil produziu 169,5 milhões de toneladas de soja, contra 118,8 milhões dos Estados Unidos. Para a safra 2025/26, a projeção do USDA é de 180 milhões. Para 2026/27, 186 milhões. O Brasil concentra mais da metade das exportações globais do grão. Em 2023, foram 58,7% do comércio mundial, segundo dados da Abiove.

Um parêntese necessário antes de seguir. A expansão do agro brasileiro tem custo ambiental real e amplamente documentado: desmatamento em fronteira, monocultura em escala, uso intensivo de água e de defensivos químicos. Essas tensões existem, são legítimas e merecem edição própria. Esta não é. O recorte aqui é estritamente sobre o que a ciência agrícola brasileira construiu de método científico e o que ainda não construiu em narrativa própria. Reconhecer as duas coisas em separado é condição do debate honesto.

Esse resultado, hoje banal nos jornais econômicos, exigiu três coisas distintas. Capacidade científica para tropicalizar uma cultura que era de clima temperado, com cultivares adaptadas ao baixo nível de fósforo e à acidez. Sistema de medição para que o ganho fosse comprovado e replicado fora do país. E uma narrativa para que o Brasil entrasse na conversa global do agro com voz própria, não só como fornecedor.

A primeira o Brasil construiu, em papers publicados pela Embrapa e pelo Instituto Agronômico de Campinas. A segunda também, com a CONAB publicando boletins mensais e o USDA mantendo estimativas próprias em paralelo. A terceira segue terceirizada. A história do agronegócio brasileiro hoje é contada, em última instância, no USDA, no Chicago Board of Trade e em relatórios de consultorias globais. O Brasil produz, mede e exporta. Mas não conta. O preço do grão plantado em Sorriso é cotado em centavos de dólar por bushel em Chicago, não em reais por tonelada na praça de origem.

Esse padrão — produzir e medir, mas não contar — se repete em muitos setores brasileiros. É dele que esta edição trata.

Os três lastros

Duas edições atrás, o Compasso falou de lastro de quem faz e de lastro de quem mede. Na edição passada, falou de lastro de quem conta. Os três aparecem juntos sempre que um setor brasileiro vira referência global. Quando algum falta, o país produz a inovação e fica com a parte menor do valor que ela gera.

Vale formalizar.

Lastro de quem faz. Capacidade real, comprovada, escalável de produzir aquilo. Não é potencial. É produção corrente, hoje, com método replicável. Mede-se por: volume produzido, número de operadores, número de unidades produtivas, taxa de crescimento sustentada.

Lastro de quem mede. Dado, certificação, métrica auditável por terceiros independentes. Permite que o mundo saiba o que está sendo feito sem precisar acreditar na palavra de quem faz. Mede-se por: papers em peer review, certificações internacionais, dados abertos, dashboards públicos.

Lastro de quem conta. Sistema próprio de narrativa, distribuição e captura de valor. Quem detém a história detém o lucro. Não é só comunicação, e não se confunde com PR. É canal, marca, IP, língua, mídia, plataforma de distribuição, política pública de promoção, presença em fóruns multilaterais. Mede-se por: citação em fontes globais com termo brasileiro, adoção do padrão por terceiros, controle sobre a unidade de medida e a moeda.

O Brasil costuma ter um. Frequentemente tem dois. Raramente tem os três. Quando tem, vira plataforma global que outros copiam.

Três casos para testar o framework.

Caso 1: Pix. Os três lastros completos.

Em novembro de 2020, o Banco Central brasileiro lançou um sistema de pagamento instantâneo público, gratuito para pessoas físicas e obrigatório para instituições financeiras de grande porte. O nome, curto e de quatro caracteres, foi escolha do próprio Banco Central: Pix.

Cinco anos depois, o Pix responde por mais de 54,7% das transações financeiras do país no segundo semestre de 2025. No segundo semestre, foram 42,9 bilhões de transações. No primeiro, já tinham sido 36,9 bilhões, movimentando R$ 15 trilhões. O sistema bateu, pela primeira vez, 313,3 milhões de transferências em 24 horas. O valor médio por transação é de R$ 456.

Os três lastros estão presentes, e dá para nomear cada um.

Lastro de quem faz: um regulador público construiu a infraestrutura, com participação obrigatória de bancos e fintechs. Não foi produto de mercado e não foi software de governo terceirizado para consultoria estrangeira. Foi engenharia regulatória nacional, com código, governança e custo total assumidos pelo país.

Lastro de quem mede: o BC publica dados abertos no portal dados.gov, com série completa de volume, valor médio, distribuição por tipo de transação (P2P, P2B, B2P) e por horário. Auditoria externa é possível para qualquer pesquisador ou jornalista, sem pedido formal. Os números que abrem este caso vieram dessa fonte.

Lastro de quem conta: o próprio BC levou o Pix a fóruns internacionais como o Banco de Compensações Internacionais (BIS) e o projeto Nexus, que conecta sistemas de pagamento instantâneo no mundo. O modelo já inspira diversos países. Em outubro de 2023, o presidente do BC anunciou que o Pix já podia ser utilizado em estabelecimentos nos Estados Unidos, Portugal, França, Chile e Argentina, em parcerias com adquirentes locais. A Itália manifestou interesse em acordo bilateral. Há discussão do modelo entre países do BRICS.

O sinal mais forte da conquista do terceiro lastro veio em 2026, do outro lado. O relatório anual do USTR sobre barreiras ao comércio exterior dedicou oito páginas ao Brasil e listou a participação obrigatória de instituições no Pix como barreira regulatória, ao lado de outras políticas brasileiras como a regulação de redes sociais e o imposto sobre pequenas remessas. É raro um país da escala dos EUA dedicar tantas páginas de relatório oficial a um único mercado emergente. Acontece quando o padrão local vira ameaça competitiva real.

Resultado prático: o Pix virou um produto brasileiro exportável. Não como software, mas como padrão, método regulatório e marca. É lastro de quem conta com peso de fato, não de palestra.

Caso 2: Embrapa cerrado. Dois lastros, com o terceiro terceirizado.

A Embrapa Cerrados foi criada em 1975, em Planaltina, dois anos depois da própria Embrapa nacional. O contexto era simples e duro: o Brasil dependia da soja para fechar a balança comercial, e o Sul, onde a cultura existia historicamente, já estava saturado. Era preciso achar terra nova. O Cerrado, com 200 milhões de hectares disponíveis, era a candidata lógica e a tecnicamente improvável.

O grupo de pesquisadores fundadores, com Eliseu Roberto de Andrade Alves entre eles, partiu para o trabalho. Alves se tornaria presidente da Embrapa entre 1979 e 1985. Em paralelo, o país firmou em 1979 o programa de cooperação agrícola Brasil-Japão (Prodecer), com financiamento e transferência tecnológica japonesa, em troca de garantia de soja para o mercado asiático.

O resultado da "tropicalização" da soja foi um dos maiores ganhos científicos agrícolas do século XX. Em quatro décadas, a produtividade por hectare cresceu de forma expressiva, com saltos significativos nas regiões de Cerrado, e o agronegócio brasileiro se transformou na principal cadeia exportadora do país.

Lastro de quem faz: inequívoco. 169,5 milhões de toneladas em 2024/25, 180 milhões projetadas para 2025/26.

Lastro de quem mede: a Embrapa publica em peer review internacional e o USDA publica suas próprias estimativas a partir das projeções da CONAB. Existe medição crivel e independente.

Lastro de quem conta: o problema está aqui. A história do agro brasileiro é, sistematicamente, contada em inglês, em centavos de dólar por bushel, em ciclos de notícia que rodam em torno do calendário do USDA. A unidade de medida do mundo (bushel) não é a unidade de medida da praça brasileira (tonelada por hectare). A moeda do mundo (dólar) não é a do produtor (real). O dia em que o USDA solta o relatório mensal de estoques movimenta o preço do grão plantado em Mato Grosso, mais do que qualquer notícia da CONAB ou do MAPA.

Não existe, hoje, na narrativa global, equivalente brasileiro para o que o USDA, o Wall Street Journal, a Bloomberg e a Reuters fazem na cobertura do agronegócio. O resultado é que o Brasil é lido como fornecedor de commodity, não como autor de inovação agrícola tropical. A Embrapa exporta ciência, mas o agro brasileiro não exporta narrativa.

Perdas práticas: preço premium não-capturado para soja brasileira de carbono mais baixo; ausente em vitrines de inovação agroalimentar tropical (que poderiam ser dominadas por aqui); pouca presença de cientistas brasileiros na imprensa global especializada em food systems. Tudo isso é dinâmica do terceiro lastro.

Caso 3: Anitta. Dois lastros, com o terceiro estruturalmente fora do país.

Em fevereiro de 2025, Anitta tornou-se a primeira artista brasileira a alcançar 45 milhões de ouvintes mensais no Spotify. Posicionou-se na 65ª colocação entre os artistas mais ouvidos do mundo. Em 2025, foi a artista brasileira mais ouvida fora do Brasil, com mais de 1 bilhão de streams estrangeiros. Canta em português, inglês, espanhol, francês e italiano. Sua colaboração com J Balvin, "Downtown", tem mais de 815 milhões de reproduções.

Lastro de quem faz: a carreira global é real. Faz.

Lastro de quem mede: os números estão todos lá, no Spotify, no Billboard, no YouTube. Mede.

Lastro de quem conta: aqui mora a tensão. A carreira global de Anitta foi gerida por 11 anos pela Warner Music. No início de 2025, após rusgas públicas com a gravadora, ela rompeu o contrato e assinou com a Republic Records, em parceria com a Universal Music Latin Entertainment. Três gravadoras dentro do mesmo Universal Music Group passam a administrar a carreira. As três são americanas.

Não existe gravadora brasileira de grande porte capaz de tocar uma carreira global do tamanho da de Anitta. O catálogo internacional é detido por contratos americanos. As parcerias de marca são costuradas em Los Angeles e Nova York. A narrativa em inglês que abre festivais e charts globais é produzida por equipes lá fora. O Brasil exporta o talento, exporta o produto, exporta a referência. E importa de volta a história sobre o que aconteceu.

Aqui o problema do terceiro lastro é mais profundo que no agro. Não se resolve com nova agência de comunicação. Falta infraestrutura inteira: editoras de música brasileiras com capacidade global, gravadoras BR no padrão major, charts brasileiros com peso internacional, festival que vira parada do calendário mundial e não só evento de turismo. Sem isso, o talento individual brasileiro depende de plataformas estrangeiras para se contar e para se cobrar.

A música brasileira é hoje, segundo o próprio Wrapped 2025 do Spotify, um dos gêneros mais escutados globalmente. O Brasil exporta som em escala. Não exporta sistema musical próprio.

Para enxergar o que o terceiro lastro muda na prática, vale olhar Bad Bunny. Latino, escala global próxima à de Anitta, mesmo gênero de mercado, mesma janela geracional. Em 2025, ele rodou uma residência chamada No Me Quiero Ir de Aquí (em português, "Não quero sair daqui") no Coliseu José Miguel Agrelot, em San Juan, capital de Porto Rico. Foram 31 datas, entre 11 de julho e 20 de setembro. Os ingressos esgotaram em horas, totalizando cerca de 400 mil. A residência trouxe mais de 250 mil visitantes à ilha, com efeito mensurável: vendas de máscaras vejigante em Ponce subiram 340%, vendas de livros de autores porto-riquenhos cresceram 280%, e a renda média de músicos locais de salsa, bomba e plena subiu 65% no período, segundo cobertura da imprensa especializada. O grupo Los Pleneros de la Cresta, parceiro em todos os 31 shows, saiu de dezenas de milhares para 12 milhões de ouvintes mensais no Spotify.

A mecânica importa mais que os números. Em vez de ele ir até o mundo, o mundo foi até a ilha dele. E o sistema que sustenta a carreira também é local: Bad Bunny é gravado pela Rimas Entertainment, gravadora independente porto-riquenha sediada em San Juan, fundada em 2014 e hoje controlada por Noah Assad, manager dele desde 2016. A Sony detém participação minoritária, não controle. Bad Bunny tem lastro de quem faz, de quem mede e de quem conta, e os três operam dentro de Porto Rico. A consequência direta: o catálogo, a marca, o festival, a narrativa e a economia criada pela carreira ficam no país de origem.

O contraste com Anitta não é crítica à artista. É sintoma de infraestrutura. Bad Bunny encontrou, em Porto Rico e em San Juan, uma gravadora boutique disposta a apostar nele em 2016, com capacidade de crescer junto. O Brasil, hoje, não tem equivalente de porte global em português. Falta a instituição, não o talento.

O padrão

Os três casos compartilham o mesmo problema, em estágios diferentes.

O Pix venceu porque o lastro de quem conta foi construído dentro do desenho do produto, não como reflexão tardia. O BC sabia, desde o início, que precisaria competir com Visa, Mastercard, PayPal e SWIFT na narrativa internacional. Investiu em isso. Levou o caso a fóruns internacionais. Publicou papers no BIS. Aceitou comparativos. Resultado: hoje o sistema brasileiro tem nome, marca e padrão de design replicável.

A Embrapa venceu metade da batalha. Tem ciência, tem produção, tem dados. Mas opera dentro de uma engrenagem narrativa de cabeça americana. Para inverter o terceiro lastro, precisaria de um esforço coordenado da própria Embrapa com setor privado, mídia especializada brasileira e diplomacia agrícola brasileira. É viável. Não foi feito.

Anitta, individualmente, está fazendo o máximo que se pode fazer sem infraestrutura. O problema dela não se resolve sem que outra coisa exista: uma infraestrutura musical brasileira de porte global, capaz de fazer hoje o que a Rimas fez por Bad Bunny em 2016. Isso é obra de geração, não de carreira.

A boa notícia é que contar é a etapa mais barata das três. Não exige novo laboratório, nova safra, novo investimento em capital fixo. Exige decisão. Escolha de canal, de língua, de tempo, de quem fala, de em que fórum estar presente. Tem custo de coordenação, não de infraestrutura.

O que fazer com isso

A regra dos três lastros não é prescrição, e não promete sucesso. É diagnóstico, e ajuda a decidir onde investir tempo e capital.

Setor que tem os três está perto de virar plataforma global. Mantém. Setor que tem dois precisa decidir se quer o terceiro. Setor que tem um precisa fazer a lição de casa do segundo antes de pensar no terceiro.

No plano do país, e no plano das marcas que querem ser brasileiras globais, vale rodar o checklist em cada produto, em cada vertical, em cada campanha:

  1. Estou produzindo de verdade, em escala e método replicável? Ou é piloto?

  2. Tem métrica auditável por terceiro independente? Ou só meu número interno?

  3. Tenho canal próprio para contar essa história no idioma e na praça em que ela importa? Ou estou dependendo de plataforma de outra empresa, de outro país?

Resposta "não" em qualquer das três marca a fronteira do trabalho.

Por que o Path

O Path é uma plataforma editorial brasileira sobre inovação. Existe para a terceira fronteira: o lastro de quem conta. Para que parte do Brasil que cria deixe de pedir tradução ao mundo e passe a publicar a sua própria.

Duas edições do Compasso atrás (nossa newsletter), a tese era simples e talvez óbvia: o Brasil precisa medir o que produz. Uma edição atrás, era a continuação lógica: precisa contar o que faz. Esta formaliza as três etapas em um método único, com nome.

A próxima fronteira do Brasil não é inventar mais inovação. É ficar com o valor que a inovação que já acontece está gerando.

Obrigado por ler até aqui.

Se esse framework te ajuda a pensar o seu setor, escreve para a gente. O Compasso é uma conversa. E o tipo de respostas que chega aqui é que faz a próxima edição.

Até a próxima.

Path

Path é uma plataforma brasileira sobre inovação como forma de pensar e agir.
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Treze anos contando o Brasil que se inventa.
www.somospath.com



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