COMPASSO #17

Um radar sobre o Brasil que cria e inova.

BEM COMUM

Imagem gerada com IA.

Vinte e cinco de fevereiro de 2015, seis e meia da manhã, Rua Belmiro Braga, em Pinheiros. Uma hora de yoga. Depois duas horas de pista, com DJ, instrumentistas e performance ao vivo. Água de coco no lugar da bebida. E todo mundo na rua às nove e quarenta e cinco, para trabalhar.

A gente trouxe, com um grupo de parceiros incríveis, o Daybreaker ao Brasil, a festa matinal sem álcool criada em Nova York em dezembro de 2013 por Radha Agrawal e Matthew Brimer. Na época, parecia um experimento. Onze anos depois, virou o formato.

Corta para 2026. Numa manhã de sábado em maio, mais de mil pessoas correram pela região da Paulista com um DJ tocando em cima de uma bicicleta. Chama Run&Bass. Em junho, entre seiscentas e novecentas largaram no Minhocão e foram terminar numa after na Barra Funda. Chama Rave4Runners. Os números são da organização, apurados pelo Seu Dinheiro.

E no mesmo período a abstinência de álcool entre brasileiros de 18 a 24 anos saltou de 46% para 64% em dois anos, na pesquisa do CISA com o Ipsos-Ipec, feita em setembro de 2025 com 1.981 entrevistas domiciliares.

A festa não acabou. Mudou de horário e tirou o copo da mão.

E o pano de fundo é bem maior que a corrida.

O Brasil é o 11º maior mercado de bem-estar do mundo, com US$ 125,40 bilhões em 2024, segundo o Global Wellness Institute. Mas o retrato por dentro interessa mais que a posição: somos o 5º do mundo em beleza, o 6º em alimentação saudável e o 15º em atividade física. Gigantes no bem-estar que se compra, pequenos no bem-estar que se pratica. No mesmo levantamento, o país gastava US$ 38,8 bilhões com beleza e US$ 33 milhões com aplicativos de meditação. Mil para um.

E tem um buraco no mapa, que o próprio instituto admite: o maior censo de mercado do bem-estar do planeta não tem uma linha para espiritualidade, porque conta o que é vendido. Reza não entra. Terreiro não entra. Num país onde 89% da população diz acreditar em Deus ou num poder maior, a maior taxa entre os 26 países medidos pelo Ipsos em 2023, a espiritualidade é um mercado que o mercado não sabe enxergar.

Daqui em diante fica polêmico. A gente vai encarar de frente, porque tem evidência boa dos dois lados.

Foram medir o corpo por fora, e ele apareceu em tudo

Martin Seligman propôs em 2011 o PERMA, modelo de bem-estar com cinco elementos: emoção positiva, engajamento, relacionamentos, sentido e realização. Um dos critérios para entrar na lista era que cada elemento fosse medido de forma independente dos outros.

Quando Julie Butler e Margaret Kern construíram o instrumento, puseram os três itens de saúde física do lado de fora, como escala adicional. E aí a medida entregou o que interessa: a saúde física apareceu moderada a fortemente correlacionada com cada um dos cinco fatores. O "H" de health do PERMAH veio depois, do trabalho de Michelle McQuaid com a própria Kern, e não é de Seligman.

Teste não houve, então ninguém foi reprovado. Mas onde quer que se olhe no bem-estar, o corpo aparece junto. É correlação, não demonstração, e é compatível com a leitura que a gente acha certeira: o corpo não é a sexta letra da sigla. É o papel em que as outras cinco estão escritas.

Três pesquisas que nunca se falaram e o mesmo desenho

O Harvard Study of Adult Development acompanha 724 homens e seus descendentes desde 1938, metade estudantes de elite e metade meninos dos bairros pobres de Boston. Oitenta e oito anos de trabalho para chegar a uma frase sobre o corpo: quem estava mais satisfeito com seus relacionamentos aos 50 era o mais saudável aos 80. Previu melhor que colesterol.

O Global Flourishing Study, de Harvard, Baylor e Gallup, entrevistou 202.898 pessoas em 22 países e trata saúde física, sentido e relacionamentos como domínios da mesma medida, não como categorias rivais. O Brasil aparece com 7,02, em décimo quinto lugar. Os autores pedem que essas médias não sejam lidas como ranking, e a gente respeita o pedido. Mas um achado de lá derruba intuição cara: a curva em U da felicidade não apareceu, e os jovens de 18 a 24 anos são frequentemente o grupo que pior floresce, Brasil incluído. Guarde essa idade, porque ela volta.

E em 2022 o JAMA triou 15.431 artigos sobre espiritualidade e saúde, incluiu 586 e mandou o resultado para um painel de 27 especialistas de crenças diferentes, com um ateu declarado entre eles. A recomendação que saiu de lá tem palavra escolhida a dedo: reconhecer a espiritualidade como fator social associado à saúde, com ênfase na participação em comunidade espiritual. Não em crença privada. Não em prescrever fé.

A chave desta edição cabe em dois números

A melhor meta-análise sobre participação e longevidade, de Shor e Roelfs, de 2013, reuniu 312 estimativas de risco de 74 publicações e mais de 300 mil pessoas. Mediu duas coisas em paralelo. Baixa participação religiosa: risco de morte de 1,32. Baixa participação não religiosa, ou seja, associação, clube, atividade comunitária secular: 1,25. A diferença entre as duas não foi estatisticamente significativa.

Traduzindo com cuidado: o que aparece associado à proteção é participar, e não necessariamente a natureza religiosa daquilo de que se participa.

O clube de corrida de terça às seis, o coro da igreja e o grupo de caminhada do posto de saúde são parentes, não rivais. Vínculo, rotina, contenção de risco e sentido: os mecanismos propostos são os mesmos nos três casos.

A explicação mais provável não é milagre. É engenharia social.

O preço da honestidade

Sem esta parte, nada acima vale. A hipótese de que rezar por um desconhecido à distância melhora o desfecho dele foi testada e rejeitada: no ensaio STEP, com 1.802 pacientes de cirurgia cardíaca, a taxa de complicações foi de 52% com oração e 51% sem, e o braço que recebeu oração sabendo com certeza que rezavam por ele teve 58,6%, resultado pior.

E o que aparece nas grandes coortes é ir, não crer. No Black Women's Health Study, com 36.613 mulheres, frequentar serviço religioso associou-se a menor mortalidade, mas orar várias vezes ao dia não. Nada disso é causa, é associação em estudo observacional. Richard Sloan fechou a porta do consultório com uma analogia difícil de responder: ser casado também se associa a menor mortalidade, e ninguém aceita que um médico aconselhe um paciente solteiro a se casar.

O campo do bem-estar também precisa passar a régua em si mesmo. Quando as duas meta-análises mais citadas da psicologia positiva foram recalculadas corrigindo o viés de amostra pequena, o efeito sobre bem-estar caiu de 0,29 para 0,10 na mais influente delas, e o efeito sobre depressão praticamente sumiu. Some a isso que três das oito financiadoras do Global Flourishing Study são ligadas à John Templeton Foundation. A evidência é real, é séria, e é bem menor do que a indústria vende.

Por que isso está acontecendo agora

Os domicílios com uma pessoa só mais que dobraram no país, de 7,5 milhões em 2012 para 15,6 milhões em 2025, quase um em cada cinco endereços. E a Organização Mundial da Saúde estima que uma em cada seis pessoas no mundo seja afetada pela solidão, associada a mais de 871 mil mortes por ano.

Morar sozinho não é o mesmo que estar sozinho, e a gente não vai fingir que é. Mas a companhia cotidiana deixou de vir de casa por padrão.

E aí vem o dado mais contraintuitivo de todos. Uma meta-análise publicada na Nature Human Behaviour em 2026, com 71 estudos, comparou programas estruturados de atividade física em grupo com programas individuais. Para desfechos de atividade, psicossociais e de saúde, não houve diferença estatisticamente significativa, com vantagem pequena para o grupo só num quarto desfecho, o funcional.

Ou seja: os dados não mostram que treinar em grupo entregue mais saúde. Não explicam por que as pessoas escolhem o grupo assim mesmo, mas abrem espaço para a hipótese que sustenta esta edição. Quem escolhe o grupo talvez não esteja pagando por um resultado melhor no exame.

O Estado brasileiro já tinha sacado isso em 2021, quando o Ministério da Saúde publicou o primeiro guia nacional de atividade física e pôs "promovendo interações sociais" dentro da definição técnica, ao lado do gasto energético. Estava lá, em português claro, cinco anos antes da meta-análise.

E o setor confirma. No estudo que a Olympikus encomendou à Box 1824, com 1.179 corredores em janeiro de 2026, a adesão a grupos entre os corredores ocasionais, justamente quem menos precisaria de treino, dobrou em um ano, de 16% para 32%. E 44% dizem que a melhor parte do treino é a conversa depois.

Quarenta e quatro por cento. A melhor parte é a conversa depois.

A tese desta edição cabe num batismo, que a gente revela lá embaixo. Por enquanto fica a virada: o Brasil não está comprando saúde. Está comprando companhia com hora marcada. E quem entendeu isso primeiro não foi marca nenhuma. Foi uma cidade de 45 mil habitantes no litoral do Paraná.

Essa cidade acordou num sábado de maio com um número de inscritos equivalente a quase metade da própria população.

ONDE A COISA ACONTECE

A orla de Guaratuba fora de temporada. Foto: Landiva Weber / Pexels

Guaratuba (PR) tem 45.529 habitantes na estimativa de 2026 do IBGE e um PIB por habitante de R$ 29 mil em 2023, pouco mais da metade da média nacional daquele ano. É cidade de veraneio, dessas que enchem no Carnaval e esvaziam em março.

Em 2 e 3 de maio de 2026, ela recebeu 20 mil inscritos na primeira Maratona Internacional do Paraná, em percurso dividido com a vizinha Matinhos. É quase metade da população de Guaratuba, ou 23% das duas cidades somadas, num único fim de semana fora de temporada. Ninguém publicou quantos vieram de fora, e a lista de atletas mistura moradores das duas cidades com corredores de Curitiba, de outros quatro estados e do Quênia.

O detalhe que faz a história é o asfalto. O percurso atravessou a Ponte de Guaratuba, inaugurada em 1º de maio de 2026, às quatro da tarde de uma sexta. Os corredores passaram por ela antes dos carros: a liberação para veículos só veio no sábado às 11h30, e a ponte foi fechada de novo na madrugada de domingo para o segundo dia de prova. A obra que a cidade esperou décadas foi estreada a pé.

A prova saiu com Selo Ouro da CBAt, o mais alto dos três níveis de homologação. E ter selo, no Brasil, é exceção. No Summit que a CBAt e a ABRACEO realizaram em abril de 2025, o presidente do Conselho de Administração da confederação, Wlamir Motta Campos, resumiu sem rodeio: "temos um grande desafio com 66% das provas sem Permit". Só um terço tinha.

E o registro público de percursos aferidos da confederação lista 139 percursos entre 2019 e 2023, e nenhum depois disso, contra 5.241 provas só em 2025 na contagem da ABRACEO. Como a CBAt seguiu homologando provas com Selo Ouro, que exige percurso medido, o mais provável é que tenha parado o registro, não a régua. De um jeito ou de outro, hoje não dá para saber quantos percursos brasileiros foram efetivamente medidos. E a medição oficial é artesanal: a Norma 10 da CBAt determina que "somente é aceita, no Brasil, a medição e certificação de percursos de provas que utilizem o método de bicicleta calibrada", com um contador Jones preso na roda dianteira. Um país inteiro de corrida medido a pedal.

Conta fechada Guaratuba não tem: não existe estudo público de impacto econômico da prova. Quem mediu foi Maceió, com 16.522 visitantes e gasto médio estimado de R$ 1.072, numa avaliação da própria prefeitura cujo método não foi publicado. Dois dias antes, a mesma prefeitura projetava 10 mil visitantes. Fica a etiqueta.

Se a evidência diz que o que protege é participar, a pergunta que sobra é quem tem o direito de dizer isso ao paciente. Quem escreveu a resposta oficial do mundo foi um médico de Juiz de Fora.

ESCUTA FINA

Alexander Moreira-Almeida é psiquiatra, professor associado da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora e fundador do NUPES, o Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde da UFJF. Em fevereiro de 2016 ele assinou, como primeiro autor, a declaração de posição da World Psychiatric Association sobre espiritualidade e religião em psiquiatria.

Um brasileiro escrevendo a regra do mundo sobre o assunto mais escorregadio da medicina. E não foi sorte de uma vez só: a declaração foi revista em 2023, com ele de novo à frente.

O documento recomenda que o médico considere, com tato, as crenças e práticas espirituais do paciente, e que colabore com lideranças religiosas e capelães, quaisquer que sejam as crenças do próprio médico. E então vem a frase que resolve o problema inteiro:

"Os psiquiatras não devem usar sua posição profissional para fazer proselitismo em favor de visões de mundo espirituais ou seculares." (World Psychiatry, 15(1), 2016. Tradução nossa.)

Repare na simetria. A proibição vale nos dois sentidos. O médico não pode empurrar fé, e também não pode empurrar ateísmo. Perguntar não é prescrever.

E o mesmo documento faz o que quase nenhum defensor do tema faz: manda o psiquiatra compreender tanto os benefícios quanto os danos das visões de mundo religiosas, espirituais e seculares. Há literatura para os dois lados, inclusive com assinatura brasileira. Uma revisão sistemática na Acta Psychiatrica Scandinavica, em coautoria com pesquisadores da PUC-SP e da própria UFJF, analisou 83 estudos com 6.703 praticantes de meditação e encontrou eventos adversos em 8,3% deles. Mais da metade dos casos graves ocorreu em pessoas sem histórico prévio de problema de saúde mental.

É o campo brasileiro ajudando a policiar a si mesmo. Isso é o oposto de folheto de retiro. E é exatamente por isso que dá para confiar nele.

Confiar na pesquisa é uma coisa. Transformar isso em negócio é outra, e dois brasileiros fizeram isso por caminhos opostos.

BONS DESVIOS

Foto: Biggo Alves / Pexels

Desvio um: o filho do exportador de castanha resolveu ficar com a margem. O pai, Antônio José Carvalho, fundou a Amêndoas do Brasil, exportadora de castanha-de-caju. Em 2015, em Fortaleza, ele desafiou os filhos Felipe e Rodrigo Carvalho a testar se dava para fazer bebida vegetal com aquela castanha. Foram dezoito meses de teste com uma nutricionista até fechar a fórmula. Nasceu A Tal da Castanha.

Em julho de 2025, a marca tinha 38% do mercado brasileiro de bebidas vegetais em volume, segundo leitura da NielsenIQ, e saiu de 6 mil pontos de venda para cerca de 43 mil em 2026. É fornecedora das bebidas vegetais do Starbucks no Brasil, fechou R$ 300 milhões em 2025 e diz mirar R$ 1 bilhão até 2030. Em 2020 o Grupo 3Corações comprou metade do negócio, em operação de valor não divulgado, mas o controle nunca saiu das mãos da família.

A sacada não está na bebida. Está no mapa da margem. A castanha-de-caju sempre saiu do Ceará em saco, para virar produto e preço na prateleira de outro país. Esses dois pegaram a mesma castanha, comprada de uma rede de cajucultores parceiros no Nordeste, quase todos pequenos produtores, e transformaram em marca com quase quatro em cada dez unidades da categoria no Brasil. O saco virou embalagem, e a embalagem ficou aqui.

Desvio dois: o Brasil virou vitrine de compra para a indústria mundial do bem-estar. Em maio de 2022 a Nestlé anunciou a compra de 100% da Puravida, criada em 2015 por Flávio Passos. A empresa faturava R$ 300 milhões em 2021, tinha 160 itens no portfólio e, o dado mais atípico, 65% da receita vinha de e-commerce. Valor da transação não divulgado, e a gente não inventa cifra.

A Puravida não foi caso isolado, foi sintoma. A Jasmine foi para a M. Dias Branco em 2022, em operação que o Brazil Journal estimou em R$ 350 milhões e as empresas não divulgaram; a Mãe Terra para a Unilever em 2017; a Do Bem para a AmBev em 2016. Só em suplementos, a Redirection International contou pelo menos vinte fusões e aquisições entre março de 2023 e abril de 2025.

Os dois desvios contam o mesmo enredo por caminhos opostos. Um segurou o controle no Ceará. O outro entregou a marca e ficou com o cheque. E os dois provam a mesma coisa: bem-estar virou classe de ativo no Brasil, não nicho de loja de produto natural.

Segurar controle e vender empresa são duas formas de ganhar dinheiro com isso. Tem uma terceira, que é não ganhar nenhum, e ela começou em 1996 com uma frase de trinta minutos.

QUEM MOVE

VICTOR MATSUDO

Ele não vendeu nada para ninguém. Ele convenceu um estado inteiro a andar.

Médico do esporte, Matsudo preside o CELAFISCS, fundado em 1974 em São Caetano do Sul. Em dezembro de 1996, o governador Mário Covas e o secretário estadual de Saúde José da Silva Guedes instituíram o Agita São Paulo, concebido pelo centro e implementado em fevereiro de 1997.

O diagnóstico era feio: um estudo de 1990 na Grande São Paulo encontrou 69,3% dos adultos insuficientemente ativos, sendo 57,3% entre os homens e 80,2% entre as mulheres. A resposta foi uma frase, repetida à exaustão para uma população-alvo de mais de 36 milhões de pessoas. Na formulação original, de 1997:

"Todo cidadão deve acumular pelo menos 30 minutos de atividade física por dia, na maior parte dos dias da semana, de intensidade moderada, de forma contínua ou acumulada."

A sacada estava toda no "acumulada". Não precisava de academia, nem de tênis, nem de mensalidade. Subir escada contava. Descer um ponto antes contava. Varrer a calçada contava.

Em abril de 2002 o Agita sediou em São Paulo o evento do Dia Mundial da Saúde, com a presença do diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, e o CELAFISCS passou a dar suporte científico à Rede de Atividade Física das Américas. O Brasil, que costuma importar método de saúde, exportou este.

Quase trinta anos depois, o Estado voltou a apostar na mesma ideia. Em fevereiro de 2026 o Ministério da Saúde ampliou em até 233% o custeio do Programa Academia da Saúde, que tem 1.772 polos e meta de mais 300 até o fim do ano. O repasse mensal por polo saiu de R$ 3.000 fixos para faixas de R$ 5.000, R$ 7.500 e R$ 10.000.

É o retrato do país nesta edição. De um lado o SUS pagando para pôr gente para se mexer junto e de graça. Do outro um mercado bilionário cobrando pelo mesmo gesto. E os dois quase não se falam.

Quem quiser ver os dois lados na mesma agenda, tem calendário. E ele tem muito mais coisa do que corrida.

POR ONDE ANDAR

Foto: Manny Rodriguez / Pexels

26 de setembro · Nova York (EUA) · Daybreaker ALIVE. Catorze horas de festival sóbrio no Pier 3 do Brooklyn Bridge Park, das seis da manhã às oito da noite, com DJ, yoga, corrida guiada e banho de som. É a festa que chegou a Pinheiros em 2015, hoje virada festival de dia inteiro.

26 e 27 de setembro · Vitória e Vila Velha (ES) · 35ª Dez Milhas Garoto. 16,090 km entre a Praia de Camburi e a fábrica de chocolate, com 20 mil vagas e inscrições esgotadas. A corrida que menos parece corrida e mais parece feriado municipal.

9 e 10 de outubro · online · 49º Simpósio Internacional de Ciências do Esporte, do CELAFISCS. Tema: "Do Sofá ao Pódium". É a casa que produz a série histórica brasileira sobre sedentarismo.

22 a 24 de outubro · São Paulo (SP) · IX Congresso Brasileiro de Medicina do Estilo de Vida. Onde a medicina formaliza o que o mercado já vende: sono, movimento, comida e conexão social como prescrição.

14 e 15 de novembro · Curitiba (PR) · Festival de Felicidade. Gratuito, com meditação, mantras, dança circular, yoga e feira holística. Bem-estar como programação pública, não como assinatura de app. Se esta edição tem uma imagem que não é tênis com GPS, é essa.

6 de dezembro · Belo Horizonte (MG) · 27ª Volta Internacional da Pampulha. Distância única de 18.079 metros, sem opção de 5 km. Todo mundo faz o mesmo percurso em volta da lagoa do Niemeyer, o que é uma declaração em si.

Repare que boa parte dessa agenda não tem nada a ver com esporte. E que o Brasil já institucionalizou o cuidado espiritual antes de saber o que ele faz.

UM TROÇO IMPORTANTE

O país que vive o fenômeno, institucionaliza o fenômeno e quase não mede o fenômeno.

Comece pelo tamanho. A Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares foi instituída em 2006 e hoje oferece 29 práticas pelo SUS. Segundo o Ministério da Saúde, em 2024 foram 7.156.703 procedimentos, alcançando cerca de 9 milhões de pessoas, alta de 70% e 83% sobre 2022, e em 2023 já eram 4.640 municípios, ou 83% do Brasil. O que mais cresceu na Atenção Primária é justamente o que a evidência sustenta melhor: ioga subiu 290% em dois anos e musicoterapia, 374%. Enquanto o mercado descobre o retiro de fim de semana a preço de passagem aérea, o Brasil pobre já faz ioga de graça no posto do bairro.

Some a isso o movimento novo. Em março de 2025 o Conselho Federal de Medicina criou uma Comissão de Saúde e Espiritualidade, coordenada pela 2ª vice-presidente Rosylane Nascimento das Mercês Rocha, para dar embasamento técnico-científico a condutas clínicas. O CFM registra que a comissão não está vinculada a nenhuma religião, e a coordenadora afirmou à imprensa que o componente espiritual não substitui o tratamento convencional, e sim o complementa.

Agora o buraco. E ele é grande.

O ensino é irregular. Um levantamento nacional com as escolas médicas mostrou que a proporção com algum conteúdo de espiritualidade e saúde subiu de 40% em 2011 para 65,5% em 2021, mas só 6,7% têm disciplina obrigatória exclusiva, e os próprios autores descrevem o ensino como fragmentado. As Diretrizes Curriculares Nacionais de Medicina, de 2014, não mencionam espiritualidade nem religiosidade, embora o mesmo texto mande o graduando considerar nove outras dimensões da diversidade, da étnico-racial à ambiental.

E quando alguém finalmente foi medir, o achado saiu desconfortável para os dois lados. Em 2020, pesquisadores do ELSA-Brasil, a maior coorte prospectiva de adultos do país, com 15.105 participantes em seis cidades, cruzaram frequência a serviços religiosos com hipertensão e estratificaram por escolaridade. Entre quem tem ensino médio completo ou mais, ir ao culto apareceu associado a mais hipertensão. Entre quem tem menos que o ensino médio, a menos. O mesmo gesto, efeito oposto conforme a escola que a pessoa teve. É um único estudo, é associação, e os autores tratam o resultado como paradoxal. Mas ele diz o que nenhum discurso diz: no Brasil, o efeito da fé sobre o corpo talvez dependa menos da fé e mais de quem a pratica.

Fora isso, o mapa é rarefeito. Uma revisão sistemática brasileira de 2020 foi procurar estudos cruzando espiritualidade, religiosidade e atividade física e encontrou nove. Todos internacionais.

E há um Brasil inteiro fora da conta. Numa etnografia feita entre 2007 e 2009 em seis terreiros de candomblé de um bairro popular de Salvador, as pesquisadoras Clarice Mota e Leny Trad descreveram ebós, benzeduras, banhos de erva e consulta atendendo gente em vulnerabilidade, com encaminhamento de mão única: a mãe de santo manda para o médico, e o sistema não reconhece a prática. A antropologia descreve isso há décadas. Quantificar, ninguém quantificou.

O país com uma das maiores taxas de crença do mundo, uma política pública de cuidado integrado de escala planetária e uma comissão nova no conselho médico ainda mal sabe dizer o que a própria fé faz com a saúde do seu povo. Isso não é opinião. É lacuna de pesquisa, e ela tem endereço.

Enquanto a ciência mede pouco, o mercado avança. E os sinais estão em toda parte.

JÁ TÁ ROLANDO

Os sinais de que o cuidado com o corpo virou o novo lugar de encontro do Brasil vão do balcão do bar à mina de ferro. Quatro, com etiqueta:

[Noite · Curitiba (PR) · 2026] Baladas e casas noturnas caíram de cerca de 600 antes da pandemia para cerca de 300, segundo a Abrabar, que aponta cliente saindo mais cedo e migração da cerveja para a coquetelaria autoral. É a mesma faixa de 18 a 24 anos que o Global Flourishing Study encontrou florescendo pior. Ela parou de beber e foi procurar outra coisa.

[Bebidas · Brasil · 2026] O Brasil é hoje o segundo maior mercado mundial de cerveja sem álcool, atrás só da Alemanha, com projeção da Euromonitor de 885 milhões de litros em 2026, enquanto o consumo total de cerveja caiu entre 6,5% e 7% de janeiro a setembro de 2025, segundo a CervBrasil. A categoria não cresce com o mercado, cresce contra ele. E abriu espaço para marca nova: a LUCIA, aperitivo não alcoólico lançado em agosto de 2025 por Bertha Jucá e Victoria Linhares, esgotou os primeiros 7.000 litros em menos de trinta dias, segundo as fundadoras.

[Plataformas · Brasil · 2025-26] No Strava, os novos clubes quase quadruplicaram em 2025 e a plataforma chegou a um milhão de clubes. Os recortes brasileiros não constam do relatório público: segundo Rosana Fortes, country lead do Strava no Brasil, ao Meio & Mensagem, o país é o segundo maior mercado do aplicativo, 56% dos brasileiros veem o clube de corrida como excelente lugar para conhecer gente, contra 37% na média mundial, e a idade média do corredor caiu de 37 para 34 anos.

[Mineração · Carajás (PA) · agosto/2026] Segundo balanço divulgado pela própria mineradora, o Circuito Corrida Vale fechou 2026 com cerca de 26 mil corredores, contra 12 mil em 2025, em sete provas gratuitas. É a mesma empresa dos 19 mortos de Mariana, em 2015, e dos 270 de Brumadinho, em 2019, cujas buscas só terminaram em janeiro deste ano. Os dois fatos não se somam nem se anulam, e a gente publica os dois. O que explica a corrida está embaixo deles: em Canaã dos Carajás a compensação mineral responde por 51,3% da receita do município, na conta do INESC com a Unifesspa, e em Parauapebas 28,5% da população tem rede de esgoto, contra 62,5% dos domicílios brasileiros. Onde a cidade inteira depende de uma empresa só, o encontro de sábado depende também. O nome técnico disso não é filantropia. É licença social para operar.

Junte os quatro, do balcão vazio de Curitiba à largada de graça em Carajás, e o desenho aparece. O que o brasileiro está comprando não é saúde. É companhia com hora marcada. E o mercado está correndo atrás de um bem que já circula de graça toda terça às seis da tarde e todo sábado às nove da manhã.

Bem-estar virou Bem Comum. Esse é o nome da nossa tendência #013.

Em breve lançaremos nossa plataforma de tendências brasileiras, e a lista de espera abriu. Faça parte [ Seja um dos primeiros a ter acesso ]


SAI COM ESSA

Em português, o sobrenome de um médico americano virou palavra comum. Cooper, substantivo masculino, brasileirismo, está no dicionário: "prática para a manutenção da forma física que consiste em corrida a pé de baixa velocidade". A gente não corre no parque. A gente faz cooper.

O método aeróbico de Kenneth Cooper, nascido em Oklahoma e radicado no Texas desde 1970, entrou no Brasil pela porta dos fundos do futebol. Cláudio Coutinho, preparador físico da seleção e amigo pessoal de Cooper, o trouxe na preparação para a Copa do México. Virou notícia de massa depois do título, e a primeira grande reportagem sai no Jornal do Brasil de 21 de setembro de 1970, com o título "Tão em forma quanto a seleção".

Um estudo de dois pesquisadores da Fiocruz, publicado na Revista Brasileira de História da Mídia, reconstrói o episódio pela imprensa carioca das décadas de 1970 e 1980 e mostra os dois lados dele: o método virou hábito de massa e, quando começaram a aparecer notícias de mortes entre praticantes, virou também controvérsia pública sobre quem pode correr e sob qual supervisão.

Cinquenta e seis anos depois, é a mesma engrenagem rodando. Um método importado, vendido por mídia de massa na carona de um evento esportivo, virando comportamento nacional e depois virando discussão sobre atestado, seguro e responsabilidade.

Mudou o aplicativo. A rua é a mesma.

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