COMPASSO #8

Um radar sobre o Brasil que cria e inova.

NO BRASIL, QUEM CARREGA QUEM?

O país aprendeu a tratar o idoso como peso. Os números contam outra história: ele banca a casa e abriu uma fase da vida que ninguém construiu ainda.

imagem gerada com IA - Tendência Path - Terceiro Tempo

A gente cresceu ouvindo a mesma história sobre envelhecimento. A conta da Previdência, a tal razão de dependência, o medo de um país de cabelo branco, tudo empurra para a mesma conclusão: os jovens carregam os velhos nas costas. Só que, no Brasil, alguém virou essa conta do avesso, e quase ninguém percebeu.

A renda dos idosos banca 70% do orçamento em um a cada três lares brasileiros, e em um a cada cinco ela responde por quase todo o sustento, segundo estudos da demógrafa Ana Amélia Camarano, do Ipea. Cerca de cinco milhões de brasileiros vivem da renda de um idoso, entre eles quase um milhão de crianças. Desde a Constituição de 1988, que ampliou a aposentadoria, quem se chamava de velho deixou de ser o peso da família e virou o seu provedor. O benefício passou a ser o chão que segura a casa quando o emprego desaparece. A vó Sônia, que aparece mais abaixo, é o retrato disso: aos 64, começou a vender bolo para socorrer um filho desempregado, e acabou erguendo uma rede nacional.

E esse provedor não está de pijama. Em 2024, um a cada quatro brasileiros com 60 anos ou mais estava trabalhando, recorde do IBGE, com desemprego bem abaixo da média nacional. Ele sustenta e continua produzindo, num país que ficou velho antes de ficar rico, como resumiu o Banco Mundial, e que vai viver em poucas décadas o que a França levou mais de um século para viver. Ficamos grisalhos com pressa, sem o colchão que outros países tiveram tempo de costurar.

E aí aparece a parte que ninguém previu. Quando uma geração termina de criar os filhos mas não abandona o trabalho, o consumo nem as contas da família, nasce uma fase da vida que simplesmente não existia. Alexandre Kalache, o médico brasileiro que cunhou o envelhecimento ativo na OMS, chamou esse intervalo de gerontolescência: a idade entre 55 e 80 anos que já saiu da juventude e segue cheia de projeto. Como a adolescência, inventada pelo século passado, é uma idade nova esperando alguém construir o entorno. E quase nada foi construído: nem produto, nem carreira, nem moradia, nem narrativa.

É essa corrida para mobiliar uma idade sem mobília que pisca em todo balcão ao mesmo tempo. A publicidade descobriu a maturidade, ainda devendo bastante: a consultoria Eixo achou que 82% das mulheres maduras não se veem nas marcas. O turismo percebeu cedo: os idosos já respondem por cerca de 15% dos turistas do país, segundo o Ministério do Turismo. Brotam clínicas de longevidade nos bairros nobres, e até a passarela mudou de humor, com modelos de mais de 60 anos na São Paulo Fashion Week. E, contra o senso comum, a fila não está nas capitais ricas do Sudeste: no recorte regional, é o Norte que lidera a fatia de idosos trabalhando.

Essa idade sem nome a gente batiza lá embaixo: Terceiro Tempo. É o tempo extra da vida, aquele que antes vinha depois do apito final e agora decide o jogo. A gente foi atrás dele de Norte a Sul, e o primeiro retrato tem endereço, e é caro.

ONDE A COISA ACONTECE

Higienópolis, onde a vida longa virou metro quadrado

imagem gerada com IA

Suba a ladeira de Higienópolis, bairro de prédio antigo e calçada sombreada no centro de São Paulo, e o retrato está ali. A incorporadora Vitacon ergueu um edifício para quem vai viver muito e quer seguir vivendo do próprio jeito, sozinho e sem pedir licença. O Vitacon Senior tem, segundo a empresa, cerca de 350 apartamentos que começam na casa dos R$ 600 mil e passam de R$ 1 milhão, com serviços de saúde embutidos e operação própria. Não é asilo, nem hospital. É endereço para o idoso lúcido que não quer morar com os filhos nem numa instituição.

O mercado importou um nome pouco inspirador para isso, senior living, e já trata o segmento como aposta séria. Em Florianópolis, a DOM estreia um projeto do tipo com dezenas de milhões na mesa, e estimativas do setor falam em carência de centenas de milhares de unidades semelhantes no país. O tijolo, que a vida toda seguiu casamento e primeiro filho, encontrou um novo cliente de cabelo branco e bolso ativo. Viver mais deixou de ser assunto doméstico e virou metro quadrado. Falta decidir o que fazer com essa vida esticada, e tem um carioca que passou a carreira inteira respondendo isso.

ESCUTA FINA

"Acrescentar vida aos anos, e não só anos à vida."

É Alexandre Kalache de novo, o pai da gerontolescência, e a frase resume esta edição. Não basta alongar a reta final, é preciso preencher o caminho. A conta da longevidade só fecha quando os anos extras chegam acompanhados de autonomia, renda e propósito; sem isso, a gente apenas prolonga a espera. E propósito, hoje, anda profundamente ligado a continuar produzindo. Tem gente transformando essa ressalva em estudo, e gente transformando em negócio.

BONS DESVIOS

Dois desvios ajudam a medir o tamanho disso, um no papel e outro no balcão.

Janaína Feijó

No papel, o estudo ‘Geração Prateada’, da economista Janaína Feijó (FGV IBRE, 2025), coloca número na intuição: o total de brasileiros com mais de 60 anos trabalhando saltou de 5,1 para 8,6 milhões em doze anos, quase 70% de alta, com duas ressalvas que não dá para empurrar para debaixo do tapete, a informalidade que ainda captura muita gente e um Brasil profundamente desigual (Roraima lidera a participação dos idosos na força de trabalho, com quase 30%, enquanto o Rio Grande do Norte aparece entre os menores).

Sônia Ramos

No balcão, tem a vó Sônia e o caso dela é o oposto de sorte de principiante. Em 2010, aos 64 anos, depois de a família sentir o baque da crise, começou a vender bolo caseiro em Ribeirão Preto. Quinze anos depois, a Casa de Bolos tinha passado das 600 lojas, faturava cerca de R$ 720 milhões por ano e foi vendida à AB Mauri, braço brasileiro da multinacional britânica Associated British Foods (a dona de Fleischmann e Ovomaltine), num negócio que o mercado estimou em torno de R$ 200 milhões.

Não é a vovó que vendeu bolo para sobreviver: é uma fundadora que ergueu uma rede nacional e fechou um M&A com uma gigante global aos 80 anos. E ela não é exceção, é a ponta de uma onda: segundo o Sebrae, 4,3 milhões de brasileiros com 60+ já empreendem, a maioria por oportunidade, não por aperto.

O fim virou começo, e em escala. E quem transformou essa virada em plataforma tem nome.

QUEM MOVE

MÓRRIS LITVAK

ilustração gerada com IA

Em 2015, Mórris Litvak, paulistano e engenheiro de software, cansou de ver o mercado tratar quem tem 50 anos como peça fora de linha e criou a Maturi, hoje uma das maiores plataformas de trabalho, recolocação e qualificação para o público 50+ do país. O diagnóstico que ele repete continua duro: segundo levantamento da própria Maturi com a EY, nove em cada dez profissionais maduros buscam recolocação, num mercado que ainda fecha a porta para a experiência. E essa não é uma conversa nova para o Path: faz algumas edições, a gente rodou a Maturi Jobs, um programa que contratava gente madura, pela bagagem e pelo repertório, para a monitoria do Festival. Já apostávamos nessa ficha quando quase ninguém olhava.

Litvak não vende vaga. Vende a ponte entre quem carrega trinta anos de estrada e um RH que ainda insiste em enxergar só os trinta anos de idade. Ele articula empresa, governo e profissional porque sabe que o setor privado sozinho não muda essa conta. E essa conversa, a do trabalho que não termina mais, já ganhou dia e endereço.

POR ONDE ANDAR

Se a carreira perdeu a linha de chegada, convém saber onde essa conversa aparece nas próximas semanas, com data e endereço.

  1. CONARH, em São Paulo, de 18 a 20 de agosto, o maior congresso de recursos humanos da América Latina. É onde quem contrata vai precisar encarar a diversidade etária e o profissional 50+ como pauta de negócio, não de caridade. A turma que decide quem entra começa a discutir quem permanece.

  2. Longevidade Expo+Fórum, no Distrito Anhembi, em São Paulo, de 12 a 14 de outubro, o maior evento da geração 60+ no país, com trilha de empreendedorismo do Sebrae 50+ e milhares de visitantes. É a feira inteira da economia que esta edição tenta mapear, vale colocar na agenda. E enquanto o mercado se reúne para medir o tamanho dessa mudança, o Estado já fez a aposta dele, e colocou na lei.

UM TROÇO IMPORTANTE

A lei que já apostou que você vai trabalhar mais

imagem gerada com IA

Em 2019, a Reforma da Previdência fez uma aposta de Estado sobre o futuro. Estabeleceu idade mínima para a aposentadoria, 65 anos para homens e 62 para mulheres, e desenhou uma transição que aperta o parafuso ano a ano até 2031. Em 2026, já é preciso ter 64 anos e 6 meses (homens) ou 59 anos e 6 meses (mulheres) para pedir o benefício pela regra de idade progressiva. Em português claro: o país escreveu na Constituição que a gente vai permanecer mais tempo trabalhando, porque a conta não fecha de outro jeito, com mais gente recebendo e menos gente entrando para pagar.

E aqui mora a ironia. Foi a Constituição de 1988 que transformou a aposentadoria no piso financeiro de milhões de lares, e é justamente esse piso que a reforma de 2019 começou a empurrar para mais longe. O Estado depende que a gente trabalhe mais para financiar o benefício do qual a própria família depende. Carreira sem aposentadoria deixou de ser sonho de quem ama trabalhar e virou regra prática para muita gente. Junte o tijolo de Higienópolis, o estudo, a confeiteira, a plataforma e a lei, e o desenho aparece com nitidez: o movimento ganha nome.

JÁ TÁ ROLANDO

As tendências brasileiras mapeadas e nomeadas pelo Path.

ilustração gerada com IA

[ TERCEIRO TEMPO ]

A tendência: a longevidade dividiu a vida em três atos e transformou a velhice de fim de linha em mercado de recomeço. O 50+ deixou de ocupar o papel de quem apenas recebe cuidado e virou quem trabalha, consome, empreende e cria. O Brasil descobriu, meio no susto, que envelheceu sem parar de produzir.

Seguindo o fio até aqui, essa virada já apareceu em cena: no prédio de Higienópolis, na plataforma do Mórris, na letra da lei. Mas o radar do Path não vive de recap, e a parte mais bonita não é o mercado correndo atrás dessa gente, é essa gente correndo, às vezes literalmente, e transformando vitalidade em serviço, experiência e produto.

Ligue um ponto no outro e aparece o desenho do Terceiro Tempo:

  • Corpo & esporte. O número de alunos com mais de 60 anos nas academias cresceu 57% em um único ano, segundo a plataforma de gestão fitness Tecnofit. E, ao contrário do jovem que entra em janeiro e some em março, esse pessoal fica: virou o aluno mais fiel da casa. No tablado do fisiculturismo, a paulista Silvia Masumoto, ex-bailarina do Theatro Municipal de São Paulo, compete aos 81. O corpo virou projeto, não desculpa, e academias, métodos de treino e até provas de corrida começam a se desenhar pensando neles.

  • Palco próprio. Não foi a marca que descobriu essa turma, foi ela que montou o próprio palco. É a faixa que mais cresce na internet: a parcela de pessoas com 60 anos ou mais conectadas saltou de 24,7% em 2016 para 66% em 2023, e boa parte já está do outro lado da câmera, produzindo e não só assistindo. A "Vovó Gamer", aos 74, juntou perto de 1 milhão de seguidores no TikTok jogando ao vivo e transformou a brincadeira em profissão e renda.

  • De volta à escola. Voltar a estudar virou hábito da maturidade. O número de calouros com mais de 50 anos no ensino superior cresceu mais de 400% entre 2010 e 2024, segundo o Censo da Educação Superior, e, no ensino a distância, as matrículas dessa faixa subiram 672% na última década, o maior avanço entre todas as idades. Diploma deixou de ter prazo de validade.

  • Morar à própria maneira. Em vez de esperar para onde a família vai mandá-los, muitos estão escolhendo com quem e como querem morar. É a proposta da Vila ConViver, em Campinas, anunciada como a primeira moradia em cohousing para a terceira idade do país, e a realidade das repúblicas de idosos de Santos, administradas pelos próprios moradores, que dividem casa, contas e companhia. A moradia virou projeto autoral.

  • Negócio que só existe por causa deles. Está nascendo uma leva de startups da longevidade, as chamadas AgeTechs, criadas por e para quem já passou dos 60. Tem de tudo: games que exercitam o cérebro, como a ISGames; plataformas que aproximam jovens e maduros para fazer companhia e ensinar tecnologia, como a Mais Vivida; e até uma marca de cosmético que se apresenta como a primeira criada por pessoas maduras para pessoas maduras. Eles não ficaram esperando o mercado chegar, montaram o próprio.

Olhar Path: o país aprendeu a tratar quem envelhece como conta a pagar. Os números contam o contrário: o que se chamava de velho virou potência, a viga que sustenta a casa e, agora, um consumidor, um trabalhador e um criador inteiros que o mercado mal começou a entender. A pirâmide virou pião e abriu uma idade nova, a gerontolescência, sem produto, carreira, moradia ou narrativa feitas sob medida. Terceiro Tempo é a corrida para mobiliar essa idade vazia, e o detalhe é que os próprios protagonistas já estão mobiliando: criam o mercado em vez de esperar por ele. E a virada é plural: mais feminina (segundo as agências do setor, a maioria dos novos criadores 50+ é mulher), mais do Norte e do interior do que das capitais ricas, mais de reinvenção criativa, da cozinha à passarela, do que de planilha. Quem ainda fala só com o jovem disputa a fatia que encolhe; quem aprender a conversar com a experiência, em vez de tratá-la como problema, pega a maior onda demográfica do século no país. Vale lembrar Kalache: tempo extra só é bom negócio se vier com vida, e não apenas com anos.

Entre na lista:: a plataforma de tendências do Path vem chegando, e o Terceiro Tempo vai ser uma das primeiras que a gente abre por inteiro lá, com leitura setor por setor. Quer ser avisado quando ela sair do forno? Deixa seu nome na lista de espera.


SAI COM ESSA

Cora Coralina foi doceira a vida inteira em Goiás e só publicou o primeiro livro aos 75 anos. Aos 70, aprendeu a datilografar só para conseguir mandar os poemas aos editores. Quando o Brasil finalmente descobriu a poeta, já era tarde no relógio de todo mundo, menos no dela. Dela, que estreou numa carreira nova quando o mundo achava que era hora de parar, fica o recado que vira esta edição inteira do avesso:

"Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça."

Talvez seja só isso: parar de tratar o fim como fim, e começar a tratar cada idade como uma estreia.

Path é uma plataforma brasileira sobre inovação como forma de pensar e agir.
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Treze anos contando o Brasil que se inventa.
www.somospath.com

Conhece alguém reinventando a carreira depois dos 50, ou alguém que ainda jura que vai parar? Encaminha. A gente escreveu para os dois.



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