COMPASSO
ESPECIAL CANNES LIONS

Um radar sobre o Brasil que cria e inova.

O POVO VIROU CASE

Este é um Compasso diferente: uma edição Especial, sem as seções de sempre. A gente passou o pente fino nos 62 Leões que o Brasil trouxe do Cannes Lions 2026 e resolveu ler o festival ao contrário: não pelo que ele diz da publicidade, mas pelo que ele diz da gente.

Imagem: Reprodução/B9 (case Field Barcode, Mercado Livre · GUT)

A CENA

Era uma noite de julho de 2025. Num amistoso de veteranos entre Corinthians e Boca Juniors, o gramado do Pacaembu virou boleto. A GUT aparou e pintou a grama até desenhar um código de barras funcional de 104 metros de largura. Quem, num aplicativo criado para a ação, apontasse o celular para a TV destravava um cupom de desconto no Mercado Livre, o novo dono do nome do estádio. Um ano depois, a ideia levou o Grand Prix de Outdoor em Cannes. Segundo a empresa, foram 53 mil cupons resgatados e cerca de US$ 1,7 milhão em vendas.

Guarde a cena. O lugar mais afetivo do futebol paulista virou etiqueta de preço, escaneável do sofá. Funcionou. Vendeu. Ganhou. E deixou uma pergunta no ar, justamente a que esta edição persegue: quando a criatividade brasileira encosta no povo, ela está servindo a ele ou apenas passando o leitor de código de barras na nossa vida?

A resposta curta: as duas coisas. A resposta longa vem em números que ninguém somou.

A CONTA QUE NÃO SAIU NA IMPRENSA

O noticiário repetiu o placar: 62 Leões, 3 Grand Prix, terceiro lugar entre os países. A conta que ficou de fora é menos reluzente. Só de taxa de inscrição, o mercado brasileiro pagou cerca de R$ 10 milhões ao festival, segundo levantamento do Meio & Mensagem. Dá R$ 161 mil por Leão trazido para casa. E isso sem contar videocase, passagem e a credencial de 4.465 euros mais imposto.

Há outra conta ausente. O Brasil inscreveu 41% menos cases que em 2025, de 2.684 para 1.593, e converteu 3,9% deles em Leões. É mais que os 3,5% do ano passado, contando os 95 Leões que sobraram depois que a DM9 devolveu doze. A queda de 107 para 62, portanto, não foi o talento acabando. Foi o mercado parando de inscrever o que não conseguiria provar, no primeiro ano em que omitir uso de IA desclassifica e case deliberadamente falso rende banimento de até três anos. Cannes encolheu um quarto no mundo inteiro pelo mesmo motivo. O que saiu de cena não foi criatividade. Foi ficção. Medida por essa régua, a eficiência brasileira subiu.

E há uma terceira. Dos 62 Leões, 53 (85%) pertencem a agências de cinco grupos estrangeiros (Omnicom, Publicis, WPP, Globant e Accenture Song). O único Grand Prix fora desse circuito, o da Artplan, veio de um grupo brasileiro e independente, nascido no Rio.

Fechada a planilha, abre-se o espelho. Porque o assunto dos cases premiados, este ano, foi menos a publicidade e mais o Brasil.

O BRASIL QUE DÁ LEÃO

Áudio de 3 minutos vira cerveja no bar. Foto: Divulgação/Heineken · LePub

Ponha os cases premiados lado a lado. O que se forma não é um portfólio, mas um raio-x do país.

Os quatro Leões da promoção Cif Limpa Nome, incluindo um Ouro de ativação, nasceram de um trocadilho que só faz sentido num país com 83,9 milhões de CPFs negativados em julho de 2026, o décimo nono mês seguido de alta, segundo a Serasa. A marca que limpa fogão se juntou ao Serasa Limpa Nome, e a piada virou serviço: 202 mil pessoas se cadastraram e R$ 7 milhões em dívidas foram renegociados, segundo a própria Serasa. A publicidade encostou na maior ferida financeira do brasileiro e, desta vez, devolveu mais que um slogan.

O Grand Prix da Heineken monetizou outra intimidade nossa: o áudio de WhatsApp. Segundo a Meta, citada pela campanha, o Brasil manda quatro vezes mais mensagens de voz que qualquer outro país. A marca ofereceu trocar áudios de mais de três minutos por cerveja, uma por CPF, em quinze bares de São Paulo e Rio. Trens envelopados e telões espalharam a ideia. No ranking que o Meio & Mensagem faz desde 2014, foi a campanha mais premiada do mundo, coisa que nenhuma brasileira tinha conseguido. O insight era sobre todos nós; o brinde, para poucos.

O Pedigree Caramelo pegou o símbolo mais democrático do país, o vira-lata caramelo, e fez o que o projeto de lei que dorme na Câmara desde 2023 ainda promete: deu status oficial ao cachorro do povo. Para isso, reuniu um estudo genético de 305 cães sem raça definida, um clube de tutores e uma embalagem própria. Levou Ouro em Creative Effectiveness, a categoria mais exigente do festival em comprovação de resultado: adoções 25% acima do ano anterior e vendas líquidas 22% acima, segundo o case inscrito. Num país com 4,8 milhões de cães e gatos em situação de vulnerabilidade segundo o Instituto Pet Brasil, é o raro caso em que vender ração e fazer bem público andaram na mesma coleira.

"Nigrum Corpus", Grand Prix de Glass. Foto: Divulgação/Artplan · IDOMED

O Grand Prix de Glass, por sua vez, foi para o trabalho mais desconfortável do ano: Nigrum Corpus, da Artplan para a IDOMED. Um livro com estética de manual médico clássico transforma relatos reais de discriminação vivida por pacientes negros em vinte "doenças" catalogadas, cada uma com ficha clínica e lâmina de microscópio, e foi distribuído em faculdades de medicina. O dado por trás dispensa metáfora: a mortalidade materna de mulheres pretas é cerca de o dobro da de brancas, segundo pesquisa do Ministério da Saúde com a Fiocruz. É o segundo Glass do Brasil. E aqui mora uma coincidência que não é coincidência: o primeiro, "Eu Sou", de 2021, transformou uma Starbucks em cartório para retificação de nome de pessoas trans e traz nos créditos dois dos criativos que hoje comandam a criação da Artplan, segundo as fichas do Clube de Criação. Quando o assunto é dignidade, o Brasil premiado tem endereço e tem autor.

"Racismo é crime. Denuncie". Foto: Divulgação/Corinthians

No mesmo ano, o Corinthians ergueu a gola da camisa com "Racismo é crime. Denuncie" três dias depois da injúria racial contra o goleiro Hugo Souza. Levou Prata em Print e foi o único Leão brasileiro de PR. A L'Oréal Luxe, por sua vez, lançou um código de dez normas contra o racismo no varejo de luxo, depois de ouvir em pesquisa própria que 91% dos consumidores negros das classes A e B entrevistados já sofreram racismo dentro de lojas. O trabalho, da Beta Collective, levou duas Pratas.

Eis o retrato: dívida, solidão digital, vira-lata, racismo. A criatividade brasileira premiada em 2026 virou um inventário das nossas dores mais bem documentadas. Quando resolve de verdade, como no nome limpo e nas adoções, é a melhor publicidade do mundo. Quando apenas colhe o símbolo e devolve um cupom, é a mais eficiente. A diferença entre as duas coisas é o assunto deste Especial.

Mas todo espelho tem moldura. E o que fica fora dela é tão revelador quanto o reflexo.

O BRASIL QUE NÃO DÁ LEÃO

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil (CC BY 3.0 BR)

Das cinco marcas mais escolhidas pelos lares brasileiros no Brand Footprint 2026 (Coca-Cola, Ypê, Perdigão, Sadia e Seara, segundo a Worldpanel by Numerator), só a Coca-Cola ganhou Leão. As outras quatro, justamente as que estão em quase todo carrinho de supermercado do país, zeraram. Dos vinte maiores anunciantes do Brasil, só cinco grupos tiveram marca premiada. Genomma e EMS, donas de Cicatricure, Asepxia e Multigrip, sustentam o intervalo comercial com cerca de R$ 2,6 bilhões anuais de mídia e não levaram nada. Já a Coca-Cola, terceira marca mais premiada do Brasil no festival, nem aparece nesse top 20 de investimento: premiar barato também é uma arte.

O dado mais simbólico do ano talvez seja este: o Brasil zerou em Film pela segunda vez na história. Film, a categoria do comercial. Justamente no país em que o vídeo alcança 99,5% das pessoas ao longo do ano e onde, entre quem assiste TV, o tempo médio passa de cinco horas e meia por dia, segundo a Kantar Ibope.

Traduzindo: a publicidade que o brasileiro mais vê não é a que o mundo premia. E a que o mundo premia o brasileiro viu pouco, ou viu de longe. Cannes celebra a ponta cool do nosso consumo. O miolo, com seu sabão em pó, seu frango congelado, sua pomada de cicatriz e seu comercial das oito, segue invisível para o júri e onipresente na vida real.

Falta a última pergunta do inventário, a mais brasileira de todas: quem assina e quem embolsa?

QUEM ASSINA, QUEM EMBOLSA?

O ano em que uma campanha criada em São Paulo foi a mais premiada do mundo também foi o ano em que o troféu de Agência do Ano acabou em Milão. A LePub São Paulo divide a autoria com a matriz italiana, que ainda somou outro Grand Prix próprio. O craft brasileiro, este sim espalhado pelo país, apareceu premiado em cases de outros países. O estúdio Bogota, de Curitiba, está nos créditos do Grand Prix de Innovation da Adidas, que pontuou para o Canadá. O Brasil fornece a mão; o ranking credita o passaporte.

Dentro de casa, entre as 33 agências que participaram do II Censo de Diversidade das Agências Brasileiras, mulheres negras são 6% da direção e 3% das presidências. Nos cases sobre pauta racial mais premiados do ano, a autoria veio de fora das grandes redes: uma independente de grupo carioca e uma butique. O povo brasileiro rendeu Grand Prix como tema. Como assinatura, ainda é exceção.

É aqui que a gente para de reclamar e começa a apontar. Porque dentro desses 62 Leões tem um padrão novo, e ele joga a favor de quem fizer a lição.

JÁ TÁ ROLANDO: IDEIA À VISTA

O padrão: acabou a era da ideia a prazo, aquela que prometia awareness para pagar em imagem, algum dia. Depois dos cases inflados e das novas regras de verificação, vence a criatividade que paga à vista, na mão do consumidor: cupom escaneado, CPF cadastrado, dívida renegociada, adoção contada, venda medida.

Os sinais vêm etiquetados:

  • Varejo · SP · jul/2025: um código de barras no gramado vira Grand Prix com 53 mil cupons resgatados, segundo a empresa.

  • Bebidas · SP/RJ · 2025-26: áudio de WhatsApp vira cerveja via CPF.

  • Serviços Financeiros · Brasil · 2025-26: marca de limpeza renegocia R$ 7 milhões em dívidas com a Serasa.

  • Varejo · Brasil · jul/2026: a Lu do Magalu, agente de IA construído pelo Luizalabs e transformado em case premiado pela Ogilvy, vende R$ 100 milhões em oito meses conversando no WhatsApp com 7,7 milhões de pessoas, segundo o Magalu.

A régua do festival mudou junto: 20.050 inscrições, um quarto a menos, no primeiro ano em que ideia sem prova não entra.

O olhar Path: isso não é o fim da grande ideia, é a volta dela para a rua. A criatividade brasileira sempre foi a arte de resolver com o que há. O que Cannes 2026 premiou, no fundo, foi o nosso jeito de transformar dor em serviço. A gente vem dizendo isso desde 2013, quando o Festival Path nasceu apostando que criatividade brasileira é potência econômica, não enfeite. O próximo ciclo pertence a quem fizer essa conta a favor do povo, não apenas sobre ele.

ANTES DE IR:

Se você chegou até aqui, ficam dois convites.

Primeiro: responda este email com uma palavra sobre o que essa leitura provocou. A gente lê tudo, e as melhores respostas viram conversa.

Segundo: a tendência IDEIA À VISTA é a décima primeira da série que estamos catalogando na plataforma de tendências do Path, que abre em breve com as fichas completas, os sinais e os espaços de oportunidade de cada uma.

Quer entrar na lista de espera? Clica aqui que a gente te avisa primeiro.

Esta foi a terceira edição especial do Compasso.
Para ler as últimas veja aqui: CARIRI e FLIP



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